Sempre me causou uma certa irritação ver publicidade dirigida ao chamado "turismo sénior" (segmento de larguíssimo espetro, aliás) promovendo genericamente os cruzeiros, o turismo "ativo", o "religioso", o "cultural" como sendo o paraíso na Terra, ou a última aspiração para quem chegou àquela idade "avançada" em que em vez de ficar de pantufas em casa quer ir (deve ir) viajar..Além da irritação, não deixo de sentir que operadores que pretendam entrar no mercado do turismo sénior têm, primeiro, de fazer o trabalho de casa. Porque não se pode vender tudo a todos e, obviamente, nenhum grupo humano pode ser estereotipado em razão da idade. Mesmo que fazer grupinhos homogéneos dê jeito ao marketing, a idade não é critério..Certo, há algo em comum ao grupo, ainda assim. Porém é algo em comum com todos os viajantes, dos 8 aos 80! Todos gastamos mais em viagens e lazer do que noutras atividades, podendo, porque todos gostamos de descanso e relax, sentido de aventura, conhecer pessoas e locais novos que estão na nossa "wishing list". Mas, juniores ou seniores, uns gostamos mais de umas coisas do que de outras..Começo por dar nota de que o mercado sénior é sem dúvida um mercado muito interessante para o turismo..Primeiro, factos e um batalhão de números..Em 2020, 20,6% da população da UE tinha 65 anos ou mais, o que significa que mais de uma em cada 5 pessoas era idosa. E 6% tinham 80 e mais anos. As projeções para 2030 são de que a fatia da população sénior aumente para 24%, no total de cerca de 9 milhões e 290 mil almas. Mais um salto e, em 2070, 30.3% da população terá mais de 65 anos e 13.2% mais de 80. Outro facto penoso: daqui a menos de 50 anos, o share da população da Europa no Mundo será de 4% (quatro por cento, leu bem)..O fenómeno do envelhecimento não acontece apenas no velho continente, embora aqui seja mais rápido e intenso. Dizem as NU que em todo o mundo a população com 60 anos ou mais está a crescer mais rapidamente do que todos os grupos etários mais jovens. A nível mundial admite-se que o número de idosos (para as NU: os que têm 60 anos ou mais), duplique até 2050. E o número de pessoas com 80 anos ou mais deverá triplicar até esse ano..Bom, não é necessário ser cientista social, mas apenas andar nas ruas do nosso Velho Continente, e ainda mais velho país, para percebermos que este envelhecimento deve-se a 2 processos demográficos: aumento substancial da expectativa de vida e declínio da fertilidade..Aqui chegados, é claro que esta transformação também tem efeitos na indústria turística, até porque os números são, como se viu, gordos e as oportunidades de negócio idem. Já agora: se em 1999 cerca de 593 milhões de turistas internacionais tinham 60 e mais anos e representavam 1/3 das despesas em férias, de acordo com a OMT em 2050 serão 2 mil milhões! Anualmente. Quem na indústria turística pode desperdiçar pensar neste mercado potencial que em 2050 representará qualquer coisa como 1/4 da população mundial?! Que fará mais viagens e nelas gastará mais do que todas as gerações mais novas?.Todavia, se as viagens e turismo aparecem na lista de recomendações de ação com impacto na qualidade e promoção do bem-estar na velhice, parece-me evidente que todos os operadores, públicos e privados, em várias esferas - logística; transportes; bilhética; acesso a informação e a serviços de saúde etc. -, têm ainda muito caminho para andar. Mudanças de atitudes, políticas, práticas e marketing, de forma a cativar e responder aos turistas seniores do século XXI. Sejam eles young at heart e em boa condição física, ou old at heart e algumas incapacidades. Tal como os jovens..Mas isso são outros quinhentos....PS: para os mais distraídos, o título desta crónica foi pedido de empréstimo e adaptado do thriller dos irmãos Coen..VP executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal