Este país não é para velhos

Ninguém ficou indiferente às imagens degradantes de um lar na Lourinhã, que passaram na semana passada na SIC. Uns meses antes, o choque não foi menor com uma notícia de uma idosa coberta de formigas num outro lar, dessa vez em Boliqueime. Estes são casos extremos que nos devem fazer reflectir sobre a sociedade que somos e sobre a sociedade que queremos ser.

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. De acordo com dados da Aging In Place, que resultam de um estudo envolvendo 30 países da OCDE, o ranking é liderado pelo Japão (28,79%), seguindo-se Itália (23,37%), Finlândia (22,49%) e Grécia (22,40%). Em Portugal, a taxa de população com mais de 65 anos fixa-se nos 22,29%. E a má notícia é que esta percentagem deverá aumentar, aproximando-se cada vez mais de 1/4 da população.

A Segurança Social tem feito o seu papel e têm sido inspeccionadas centenas de lares e, entre estes, dezenas têm sido fechados. Não se pode dizer, neste ponto específico, que o Estado não está a fazer o seu papel. Mas não é suficiente. Os sucessivos governos não têm encontrado melhores soluções para que os nossos cidadãos mais velhos tenham uma vida digna. Ainda que, é preciso sublinhar, este não é um assunto que seja responsabilidade exclusiva do Estado, deve começar primeiro nas próprias famílias.

Vivemos numa sociedade, ao contrário do que acontece por exemplo em vários países asiáticos, que desvaloriza os mais velhos, tratando-os mais como empecilhos descartáveis do que como fontes de sabedoria, de cultura e, sobretudo, de amor. Mas a tendência tem sido, ao mínimo problema, colocar os nossos idosos em lares, quando nem sempre essa é a única ou a melhor, solução no seio familiar. Aqui os descendentes poderiam ser aconselhados pela Segurança Social a encontrar melhor destino para um avô ou uma avó.

Mas nem só as famílias devem repensar as suas atitudes. Também os governos devem repensar as suas políticas para a terceira idade. É provável que daqui a uns anos, dado o envelhecimento já referido, não haja sequer vagas em número suficiente para acolher todos os nossos cidadãos mais velhos. E em muitos casos, devido ao nosso empobrecimento, boa parte das famílias nem terão orçamento suficiente para recorrer a lares. Há que encontrar outras soluções, que passam pelo incremento de uma muito maior assistência aos domicílios, bem como opções dentro das próprias famílias com apoio estatal.

No fundo, há uma emergência na mudança de mentalidades, nas famílias e no Estado, e devemos olhar para os nossos anciãos com outros olhos. Se é verdade que este país não é para jovens - dadas as dificuldades que encontram para conseguir singrar na vida -, ainda é menos para os mais velhos, vistos muitas vezes como um peso. Não pode nem deve ser assim.

Presidente do movimento Partido Democrata Europeu// O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG