Italo Calvino no seu Como ler os clássicos? afirma que "um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma vaga de discursos críticos sobre si, mas que continuamente se livra deles". Segundo a origem da palavra, do que se trata é de um autor ou de uma obra que se tornaram matéria das "classes", ou seja, do ensino e da relevância pedagógica, transmitidos de geração em geração. Os grandes clássicos tornam-se, assim, objeto de paixões e de estudos incessantes e nunca terminados. Os estudiosos apaixonados dedicam-se à perseguição constante de um autor ou de uma obra. Entre nós, lembro dois amigos, que nos deixaram, mas cuja memória continuará a ser fonte de uma justa familiaridade com um dos nossos mais importantes clássicos. Falo de José Maria Eça de Queiróz como distinto clássico, e refiro Luís Santos Ferro e Alfredo Campos Matos como dois extraordinários e incansáveis estudiosos dessa fascinante personalidade, sem a qual não podemos compreender a cultura portuguesa. O arquiteto Campos Matos acaba de nos deixar, e sentiremos a sua falta sem sombra de dúvida, sendo certo que dispomos de uma importante obra que permite conhecer melhor a personalidade de José Maria (como familiarmente se lhe referia o Luís), a sua época, os seus amigos, a sua obra e a sua influência..Como afirma o autor do indispensável Dicionário de E.Q.: "Reconstruir uma existência não exige apenas investigação, confronto de dados, intuição psicológica, escrúpulo científico. Pede também imaginação, independência de juízo, humano entendimento, ponderação. De facto, algumas biografias (...), se lidas com olhos de ler, levam-nos a concluir que a ponderação é para um biógrafo uma virtude maior. Deve constituir mesmo uma das suas preocupações metodológicas." Ora, a imaginação respeita a apresentação dos materiais, mas não com a tentação de imaginar os materiais. É verdade que há situações fronteira em que a arte nos leva à dúvida, sobretudo quando não se trata de imaginar realidades, mas de apresentar uma ideia do modo atraente. Estou a ouvir Alfredo Campos Matos a recordar o episódio passado entre Oliveira Martins e Eça de Queiroz. Em 1894, agradecendo a oferta de A Vida de Nun"Álvares, Eça salientava a semelhança entre figuras históricas e políticos de então, como o conde de Andeiro e Mariano de Carvalho, ou pondo em Álvaro Pais as características de um conselheiro contemporâneo. E perguntava ao seu fraternal amigo: "Que documento tens para dizer que a rainha num certo momento cobriu de beijos o Andeiro, ou que o Mestre passou pensativamente a mão pela face?... Estavas lá? Viste? Esses traços, penso eu, não dão mais intensidade de vida, e criam uma vaga desconfiança" (Carta de 26.04.1894). O episódio permite enaltecer as qualidades do dramaturgo que, mais do que uma obra científica, apresentava a realidade viva. E a crítica de Eça, mais não é que um elogio à intensidade da escrita. Afinal, o cultor da biografia deve ouvir Álvaro Lins, considerando "aquela multiplicidade de fisionomias físicas e morais que o decorrer dos anos vai imprimindo em todos os homens"..Campos Matos, como sumo cultor da pesquisa biográfica, invocava Virgínia Woolf, ao separar o muito que é perecível na existência e o pouco que continuará a viver. Há sempre uma fronteira entre a capacidade de imaginar e a possibilidade de conhecer a verdade dos factos, dependendo a credibilidade do sentido crítico e da preocupação de não trair a verdade. Daí que João Gaspar Simões tenha dito que "a biografia é uma ideia pessoal sobre o homem que queremos conhecer". A obra vasta de pesquisa sobre a personalidade complexa de Eça de Queiroz constitui o exemplo da reunião de materiais capaz de fundamentar a compreensão de um clássico - no exato sentido de Italo Calvino, definindo a capacidade de superar as limitações do tempo. E é essa a virtude que encontramos, com coerência inabalável, na obra do arquiteto Alfredo Campos Matos.. Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian