Estabilidade no patilhão

Homem da beira-mar, Luis Montenegro sabe certamente o que é navegar à bolina, essa técnica ancestral que os nossos marinheiros inventaram para velejar de contra-vento por zonas onde os ventos não são favoráveis. Pois bem, o novo líder do PSD vai ter tempo para a apurar, na oposição, depois de um congresso que o consagra diante de um partido aparentemente mais unido e esperançoso e, sobretudo, enfrentando um governo de maioria absoluta no Parlamento, com um horizonte de quatro anos.

Acontece que nada do que aconteceu nos últimos 133 dias estava na agenda dos nossos dirigentes. A começar em quem governa. Vitorioso e reconfirmado nas eleições de janeiro, António Costa escolheu o seu terceiro governo, uma equipa concebida para fortalecer as novas lideranças socialistas, dando palco aos promitentes sucessores, e orientada para gerir a recuperação económica pós pandemia, com a ajuda de 15 mil milhões de euros de fundos europeus destinados a acelerar a digitalização, as energias renováveis e a modernização da economia.

Ora, esse horizonte empalideceu subitamente. E um governo concebido para a recuperação está agora a ser reprogramado por marchas forçadas nas trincheiras de uma guerra real na Ucrânia e nas trincheiras internas, pelas suas consequências económicas em Portugal e por toda a União Europeia. A resposta à crise que aí está e ao que há de vir exige celeridade, solvência e, sim, também aquela resistência que António Costa transformou num recurso crucial da sua carreira política. Mas tanto a capacidade de resistência quanto o seu proverbial "jogo de cintura" terão que produzir o seu melhor efeito diante dos efeitos desestabilizadores da crise que a guerra prenuncia. Sem alarmismos, mas com verdade, é essencial passar aos portugueses a perceção informada e adulta da gravidade da situação. Porque não se trata apenas da destruição material e traumática de um país europeu, mas das consequências que a "defesa da Ucrânia" terá doravante por toda a Europa.

Manter as sanções à Rússia terá um alto custo para os europeus, e não há soluções mágicas que não impliquem sacrifícios. As pessoas, os cidadãos comuns, saem mais pobres de todas as guerras, e a pedagogia política sobre a dureza dessas consequências pode e deve ser uma aliada decisiva para que seja eficaz na preparação da cidadania. As coisas são o que são, é o princípio da realidade, e já nos custou caro o erro de quase todos negarem, no passado, a chegada de uma crise galopante, em 2008. Depois desta e depois da pandemia, este será o terceiro empobrecimento súbito e sucessivo que algumas gerações de jovens irão experimentar, esmagadas nas suas expectativas de vida. Nada será como antes porque se adivinha pior.

É este o quadro que emoldura a chegada de Montenegro à liderança da oposição, mas é de Costa a responsabilidade do leme. Ninguém duvida da preocupação de um e de outro com a situação de milhares de famílias, porque os efeitos da crise já aqui estão. Mas essa perceção deve chegar tanto à rua quanto ao governo e aos grupos parlamentares. A transparência sobre a gravidade da situação e a transparência sobre as medidas destinadas a mitigar os seus efeitos andam de mãos dadas e são indissociáveis. E quaisquer que elas sejam terão que contar com a crescente angústia social, com o cenário de maiores desigualdades geradas pelas consequências da guerra, e a necessidade de mitigar o fogo cruzado de potenciais parceiros e aliados que hoje se sentem excluídos da conversa. Em posições bem diferentes, de confronto, Costa e Montenegro vão ter de saber navegar à bolina: "Com ventos contrários, colocar as velas a seis quartas da proa (cerca de 45 graus) e, se for caso disso, avançar em ziguezague, com estabilidade no patilhão", a quilha que impede que o barco adorne - e nós com ele.


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