Há precisamente um ano, a 19 de março publiquei aqui "Portugueses por um Sara marroquino", a partir da iniciativa encabeçada por Paulo Portas, "Figuras nacionais pedem a governo para apoiar Marrocos no Sara", após o reinício e crescendo das hostilidades entre sarauis independentistas e marroquinos (nov. 2020). O apelo deste grupo de figuras nacionais, que integrava um número considerável de ex-ministros sociais-democratas, socialistas e não só, estavam sobretudo preocupados com a manutenção dos equilíbrios regionais no Magrebe, Sahel e África Ocidental, que derivam deste giroscópio central, a disputa pelo Sara magrebino entre marroquinos e argelinos. Há um ano António Costa era o presidente do Conselho Europeu durante esse semestre e pela primeira vez em mais de trinta anos, membros da elite política portuguesa tomaram publicamente um partido, perante esta disputa herdada da guerra fria, na lógica de a levar a debate prioritário durante a presidência portuguesa da União Europeia..No fim-de-semana (fds) passado, foi o primeiro-ministro (PM) espanhol, Pedro Sánchez, através de uma missiva pessoal enviada ao Rei de Marrocos, a expressar a sua preferência pelo plano de autonomia esboçado pelo reino alauita, nos idos de 2007. Ressalvar que a Primavera Árabe entretanto veio acelerar todo o processo e na nova Constituição marroquina de 2011, o Sara em disputa já não aparece como Região Autónoma, mas como Províncias do Sul, divididas em três grandes regiões..Todos nos lembramos que o último pico da crise diplomática entre Marrocos e Espanha se deveu ao internamento em Saragoça de Brahim Ghali, líder dos independentistas da Polisario, em abril de 2021. O enredo do momento que praticamente obrigou os espanhóis a darem assistência hospitalar a este infectado com covid, foi o facto de estar marcado para novembro do mesmo ano, a renegociação do fornecimento do gás argelino que abastece Espanha e Portugal. Marrocos, furioso perante isto, exigiu a detenção do separatista baseado numa queixa apresentada por uma Associação de Direitos Humanos espanhola que o acusou de tortura em 2008..Também a declaração do passado fds do PM espanhol tem um enredo. Desde que a Argélia substituiu o fornecimento de gás à Península Ibérica (PI), passando do gasoduto Magrebe-Europa (GME que passa por território marroquino) para o Medgaz (nov. 2021), que liga directamente Argélia e PI, que Marrocos negoceia com Espanha a possibilidade de reversão do GME, para ser abastecido por Espanha com gás argelino! A imprensa marroquina tem ultimamente veiculado notícias que dão como garantido um entendimento entre os dois reinos para a reversão do GME. A Argélia ameaça a Espanha de um corte total do fornecimento à PI, caso a "garantida" reversão venha a verificar-se. Espanha toma uma posição e reconhece o plano marroquino para a regularização da questão saraui, como o mais equilibrado e realista..Mais uma consequência da guerra na Ucrânia, já que este posicionamento espanhol, também se enquadra no âmbito das sanções aplicadas à Rússia. Ou seja, não se vai apenas atrás desta, mas também dos seus aliados e a Argélia vê-se agora perante o dilema de cortar o gás à PI e alinhar-se com os russos, ou não cortar e alinhar-se do lado dos mercados. Nada negligenciável para um mono-produtor que tem nos hidrocarbonetos o sustentáculo da sua economia..Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt.Escreve de acordo com a antiga ortografia