España en el corazón. (Pablo Neruda).Os problemas em que hoje vemos mergulhada a Espanha envolvem a sua própria definição e identidade enquanto "Estado das autonomias" (nos termos da Constituição espanhola de 1978, que reconhece as "nacionalidades históricas"), e têm assim que ver com o próprio fundamento da sua realidade histórica, enquanto nação composta por diferentes nacionalidades..Por muito que ame a Espanha, onde vivi, nunca partilhei o menor sentimento iberista. É inegável que pertencemos historicamente à casa comum da civilização ibérica (Oliveira Martins), que a dimensão peninsular é hoje essencial à nossa inserção na Europa, fundamental para a nossa economia e necessária à nossa cultura. Mas a união ibérica em termos políticos ter-nos-ia ligado a uma Espanha onde a unidade nacional nunca verdadeiramente foi resolvida a contento de todos os seus povos..Fez na semana passada quarenta anos que um golpe militar abalou a Espanha, acabada de entrar então, como nós, em regime democrático. No dia 23 de fevereiro de 1981, eu estava na Embaixada de Portugal em Madrid, jovem secretário. Seguíamos pela televisão, ao fim da tarde, o debate de investidura nas Cortes de um novo governo..Quando o tenente coronel Tejero entrou no parlamento à frente de um grupo de guardas civis com os seus garbosos chapéus de três bicos, pudemos assistir (como todos os espanhóis que seguissem pela televisão o debate) a um momento histórico em direto. A rajada de metralhadora disparada sobre o hemiciclo fez que só ficassem em pé, numa atitude inesquecível de coragem e orgulho, o primeiro-ministro Suárez, o vice-primeiro-ministro general Gutierrez Mellado e o líder comunista Santiago Carrillo..Compreendemos imediatamente na embaixada que teríamos uma longa noite a passar. O ministro André Gonçalves Pereira ligou pelo telefone e pediu que nos mantivéssemos permanentemente em linha, para que ela não caísse. A tecnologia da época era assim e não fora considerado necessário termos em Madrid o equipamento de rádio que nos permitia em Luanda o acesso a Lisboa sem interferências..O embaixador (saudoso João de Sá Coutinho!) passou-me então o telefone (eu era o mais novo) e lá fiquei a conversar com o colega de Lisboa, até que, esgotada a conversa, pusemos duas funcionárias, uma de cada lado, a lerem em dueto... Os Lusíadas! No meio das estrofes, íamos nós trocando informações..O Presidente Ramalho Eanes e o primeiro-ministro Francisco Balsemão tinham já constituído os gabinetes de crise, as fronteiras tinham sido colocadas em estado de alerta com reforços militares, todos nós aguardávamos..Chegou então à embaixada o socialista Raúl Morodo, nosso amigo. Ansioso, comunicou-nos a situação: com todas as lideranças dos partidos políticos sequestradas no Parlamento, as centrais sindicais estavam em reunião clandestina com diferentes personalidades democráticas, prevendo o pior. Morodo vinha perguntar-nos se a embaixada de Portugal acolheria os refugiados políticos espanhóis que um eventual triunfo do golpe militar franquista viesse obrigar ao asilo político..A questão foi imediatamente apresentada pelo embaixador ao nosso governo. O primeiro-ministro Balsemão não hesitou um minuto: sim, a embaixada. Portugal concederia asilo político a todos os democratas espanhóis que o solicitassem. Sentimo-nos orgulhosos do nosso país e da nossa democracia..O rei Juan Carlos falou só tarde de madrugada, após longas horas: o golpe de Estado tinha abortado!.Não foi necessário trazer mais colchões para a embaixada.... Diplomata e escritor