Era uma vez... O estado da nação

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Em criança, incitado pela minha mãe - professora de ciências da natureza -, passava tardes a ver e rever uma coletânea de DVDs intitulada de "Era uma vez... O corpo Humano". Era fascinante como uma série animada retratava tão bem o funcionamento das várias partes do corpo humano nas várias fases da vida, e quais os problemas que cada um pode enfrentar nesses vários momentos.

Ontem, decorreu na Assembleia da República o debate sobre o Estado da Nação. Quezílias e números à parte, permitam-me que o resuma - o estado da nação, não o debate -, inspirado pelo sentimento nostálgico sobre a dita coletânea.

As questões começam a colocar-se ainda antes do parto. Bem, o melhor será evitar nascer no verão ou, na impossibilidade, esperar que a mãe não resida na região oeste ou esteja de férias no Algarve, que aí a coisa pode complicar. Nascido o bebé, é esperar que a encomenda de vacinas para os centros de saúde feita pelo governo já tenha chegado e acender uma vela por um lugar numa creche. Aliás, o melhor é acender logo duas - uma por um lugar numa creche e outra para que quando chegar ao ensino secundário não lhe falte nenhum professor das disciplinas às quais vai a exame nacional para mais tarde ingressar no ensino superior.

Finda a infância e a adolescência, vêm aqueles que serão, segundo muitos, os melhores anos da vida - os anos de vida universitária! Ah, isto se o estudante não for deslocado porque se for é quase certo que, entre propinas, habitação e alimentação, gaste mais do que o salário mínimo que é, em média, o salário de 1 em cada 4 pais. Nesse caso, calculo que esses anos já não sejam tão divertidos.

Isto leva-nos à entrada no mercado de trabalho, o que traz boas notícias e notícias não tão boas. As boas notícias é que depois do rombo financeiro que pode ter sido frequentar o ensino superior, o mais provável é que volte para casa dos pais e só de lá saia aos 34 anos. As notícias menos animadoras são que isso deriva de uma enorme precariedade laboral, salários baixos, crédito à habitação pouco acessível e um mercado habitacional inflacionado. Já para não falar que atrasa um pouco o ciclo natural da vida. Há sempre a possibilidade de emigrar, mas, enfim... Ficando, pelo menos a vizinha traz um bom vinho cada vez que vai a Bordéus visitar os pais.

Após uma vida a trabalhar recebendo menos de 2/3 de um salário médio da União Europeia, chega a 3ª idade e, com ela, a reforma. Nesta fase da vida, caracterizada por uma abundância de tempo livre, o melhor a fazer para passar o tempo será voltar a um velho hábito e acender velas novamente, desta feita, uma por dia, pois todos os dias se ansiará por um aumento na pensão - que, em média, não passará dos 570€ - e, claro,

por saúde. Tudo menos ficar refém do SNS - sistema de saúde onde apesar do número de cirurgias realizadas estar a crescer, a procura e as listas de espera aumentam a um ritmo mais acelerado.

Dito isto, Eurico Brilhante Dias até pode ter razão, na medida em que qualquer aspeto melhorado será, efetivamente, uma melhoria na qualidade de vida dos portugueses. A questão, parece-me, é que dada a tendência degenerativa, o progresso realizado nos últimos anos parece, na generalidade, manifestamente insuficiente. E não vale a pena negar que a qualidade de vida está pior porque a insatisfação cresce, e os portugueses não são piegas.

Retorno, por isso, à necessidade de pensar estruturalmente os problemas do país, baseando as políticas públicas em evidências e deixando de lado a navegação à vista que conduz a leis cartazes, como frisou o próprio Presidente da República. Creio que este governo, por muito que chegue ao fim da atual legislatura, ficará sempre marcado por uma enorme instabilidade, mas independentemente disso, Portugal e os portugueses merecem políticas estáveis e progressistas que permitam recuperar os atrasos económicos e sociais que o país vem acumulando de sucessivas crises. Que o verão seja refrescante. Afinal de contas, o estado da nação quer-se como o corpo humano: vivo e de boa saúde.

(Mestre em Desenvolvimento Internacional e Políticas Públicas, Membro Fundador da All4Integrity)

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