Entre ética e ideologia: o risco de um museu capturado

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A revisão do Código Deontológico do ICOM [Conselho Internacional de Museus, na sigla inglesa], apresentada como uma actualização técnica alinhada com a nova definição de museu, representa na realidade uma mudança conceptual profunda e politicamente carregada. Ao deslocar o eixo do museu da conservação, do conhecimento e do acesso às colecções para a reparação simbólica, a justiça histórica e a validação de reivindicações identitárias, o novo Código arrisca a substituir uma ética profissional universal por uma moral fragmentária e contingente.

Do ponto de vista tradicional, o museu é uma instituição ao serviço da sociedade como um todo, responsável pela preservação do património comum e pela mediação crítica entre passado e presente. A introdução de categorias morais como “trauma herdado”, “dano simbólico” ou “reparação”, oriundas de contextos políticos específicos, como o movimento woke, tende a impor uma leitura anacrónica da História, transformando o museu num tribunal simbólico do passado. Esta moralização retroactiva compromete a liberdade intelectual e empobrece o debate crítico, ao privilegiar narrativas fechadas em detrimento da complexidade histórica, sobretudo da contextualização e a visão integrada de conjunto, com o devido distanciamento na análise do passado.

Como alertam Maria Isabel Roque e Luís Raposo, o perigo maior reside na instrumentalização do Código como ferramenta disciplinar. Ao regular práticas concretas, o novo enquadramento ético pode legitimar formas de censura preventiva, condicionando o acesso às colecções e subordinando a investigação e a exposição a sensibilidades contemporâneas e apenas a essas. A defesa do acesso livre às fontes primárias é central e fundamental: sem ele, não há crítica, não há compreensão histórica, nem construção identitária plural.

A rejeição de uma hierarquia clara entre os princípios do Código - colocando conservação, activismo social e governança no mesmo plano - enfraquece o núcleo da ética museológica. Em nome da inclusão, corre-se o risco de excluir; em nome da pluralidade, de uniformizar. Os museus deixam de ser espaços de mediação crítica para se tornarem instrumentos de correcção moral. É uma verdadeira instrumentalização da História e do património.

Num contexto de crescente polarização e fragilização institucional, os museus deveriam afirmar-se como lugares de continuidade, conhecimento e liberdade intelectual. Uma ética profissional capturada por agendas ideológicas não fortalece os museus: ameaça a sua função essencial de preservar o passado para que o futuro possa compreendê-lo, debatê-lo e criticá-lo livremente.

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

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