Ensino à distância por todo o lado. E uma história que nunca contei a ninguém*

*É só querermos estar um pouco atentos. Acompanha um pedido aos leitores...

Acho que estava no 8.º ano (seria no 9.º?), num daqueles intervalos "grandes" que havia -- uns incríveis 20 minutos que me pareciam, mesmo assim, pouquíssimo tempo para tudo o que tinha para dizer, ainda que tal acabasse por aborrecer os, apesar de tudo, misteriosamente meus amigos.

Como sempre, falava que me desunhava. Sobre a velocidade da luz e por que é que, ao contrário do que dizia um tipo qualquer (tenho ideia que namorado de uma colega, mas de outra turma), não era como a velocidade do som, que "antigamente também se dizia que não se conseguia passar". Só porque o pai dele, lá em casa, dizia isso...

A conversa chegou ao fim antes de eu acabar de tentar explicar (incipientemente, de certeza) a Relatividade de Einstein -- e que por causa de E=mc^2 qualquer objeto massivo quanto mais se aproxima da velocidade da luz mais energia necessita para acelerar, logo, para a atingir precisaria de uma energia infinita; pelo que até poderia chegar a 99,999999999999....% dessa velocidade, mas nunca a ultrapassaria.

O casalinho foi-se simplesmente embora, para se entreterem os dois... O resto do grupo já antes se tinha dividido em conversas "próprias da idade" e eu ficara -- não pela primeira vez, nem minimamente pela última -- um bocado a falar sozinho.

Mas reparei que, um pouco à parte, encostada à parede, estava uma (como lhe chamávamos então) contínua a escutar a conversa. Tenho clara memória da postura, apesar de não lhe recordar as feições. Apercebendo-me de audiência, ainda acabo a frase rudemente interrompida, para levar a pergunta que nunca esqueci: "Como é que sabes essas coisas todas?"

"Oh, porque vejo muita televisão!", foi a resposta honesta, e sem falsas modéstias. O verdadeiro culpado da palestra tinha provavelmente (não posso afiançar) sido o episódio de Cosmos do fim de semana anterior.

"Eu também vejo muita televisão e não sei nada disso!", respondeu-me a auxiliar de educação a rir. Fiquei sem saber o que dizer (o trato social nunca foi o meu forte -- vide toda a história acima...). E tanto quanto me lembro segui para as aulas.

Isto passou-se no Portugal dos anos 80, havia dois canais de televisão, que só transmitiam algumas horas por dia.

Este texto é distribuído por várias plataformas, todas elas com espaço de comentários aberto à participação dos leitores, pelo que ficaria muito grato se partilhassem as vossas sugestões dos programas e/ou canais que considerem mais interessantes ou educativos.

Mesmo assim, o Cosmos foi um êxito. Anos mais tarde, ao pensar naquele episódio (que, como se nota, nunca me saiu da cabeça), concluí que provavelmente o pai lá do namorado da outra disse o disparate que ele veio repetir para a escola depois de ter visto o mesmo documentário, e que eu estava a tentar transmitir a informação que eles ouviram na televisão -- em melhor --, mas à qual não ligaram.

Mas centenas de milhares de pessoas em Portugal -- e centenas de milhões no mundo -- ligaram. E não apenas ficaram a saber mais sobre a Terra e o Universo como se inspiraram para ir estudar esses assuntos.

O mesmo se aplica aos documentários da National Geographic, ou da BBC, ou...

Mas não só. Ainda esta semana o The Guardian reportava que o plano de vacinação que o Reino Unido está a aplicar é, em parte, inspirado no filme Contagion, de Steven Soderbergh!

A quantidade de astronautas que dizem ter seguido esse sonho por causa da série de ficção científica Star Trek é enorme.

É por demais conhecido que o próprio Stephen Hawking era assumido fã, tanto que numa visita a Los Angeles, aceitou fazer uma participação num episódio do The Next Generation:

E quando lhe perguntaram, nos bastidores, quando é que teríamos, na vida real, warp drive para chegar às estrelas, Hawking respondeu: "Estou a trabalhar nisso".

Há informação válida nas mais insuspeitas fontes. Alguma pode ser meramente inspiradora. Outra é simplesmente cultura ou novas perspetivas para problemas que não existem ou até existem, mas não sabíamos que os tínhamos.

Por exemplo: por que raio, na maioria das empresas em Portugal, se fazem reuniões intermináveis sentadas, em redor de uma mesa? Na série Borgen, as reuniões de redação na estação de TV são feitas em pé, para despachar o mais rapidamente possível. Não faz mais sentido isto?

Saber escolher é o mais difícil - mas o mais giro

Em 40 anos passámos, felizmente, dos tais dois canais para um universo quase interminável de fontes, com tanta informação e desinformação que parece por vezes impossível escolher.

Pior, a natureza humana tende ainda por cima a privilegiar as opiniões que vão ao encontro das suas, fechando-se ao debate (Carlos Guimarães Pinto tem um interessante texto sobre isso no Eco).

Pior ainda: praticamente não existe cultura de competitividade ou excelência em Portugal no âmbito escolar. A maioria dos nossos pais sonha que os filhos se transformem em Cristianos Ronaldos (que há só um), mas arrepiam-se de pensar que eles podem vir a ser CEO de uma grande empresa -- também não há muitos, tendo em conta que basicamente não as há por cá...

Já se o miúdo disser que quer mesmo é ser astronauta quando for grande... Esquece lá isso!

Cinismos à parte, é obviamente possível encontrar por todo o lado, da televisão às redes sociais, bons conteúdos para ocupar os miúdos com aprendizagem neste período de ensino à distância, independentemente do que as escolas vierem a fornecer oficialmente.

Ainda há pouco tempo um amigo me contava que o miúdo dele -- daqueles que tinha notas para escolher qualquer curso superior, tanto que praticamente só o fez à última da hora, já quando os pais estavam aflitos sem saber afinal de contas o que é que o rapaz queria ser na vida (claro que ele sabe!) -- passa a vida em multitasking cerebral: mesmo quando está no computador a fazer coisas tem vídeos de tutoriais do YouTube a correr no telemóvel.

Uma coisa é certa, o que não faltam para aí são conteúdos educativos ou inspiradores para todas as idades. É preciso é saber escolhê-los.

"Se calhar não vê os programas que eu vejo" -- é o que eu devia, mas com um sorriso simpático, ter respondido à contínua. E daí talvez não. Se calhar levava-me a mal...

Precisamente porque não quero que me levem a mal (muito menos depois de terem tido pachorra para ler até aqui), não me arrisco a sugerir qualquer um desses conteúdos -- até porque não tenho filhos. Mas além do site, este texto vai ser distribuído por várias plataformas sociais, e todos os espaços têm comentários abertos à participação dos leitores, pelo que ficaria muito grato se partilhassem as vossas sugestões dos programas e/ou canais que considerem mais interessantes ou educativos.

O debate é vosso.

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