Ensinar e avaliar com IA no Ensino Superior

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Retomo o tema da minha crónica da semana passada, agora a partir do ângulo da adaptação à inevitabilidade do uso da Inteligência Artificial.

Rejeitar a proibição da IA no Ensino Superior não equivale a ignorar riscos ou a desconsiderar as preocupações de muitos. Os perigos existem e devem ser reconhecidos sem rodeios. O uso acrítico da IA pode conduzir à superficialidade, à dependência cognitiva e à ilusão de conhecimento. Mas a resposta a esses riscos não é a censura tecnológica. É a evolução e regulação pedagógica.

O verdadeiro problema não está no uso da Inteligência Artificial, mas na substituição do pensamento por geração automática. Aceitar respostas sem questionar, confundir fluidez textual com compreensão profunda, abdicar da reflexão própria são riscos reais. No entanto, nenhum deles se resolve por decreto. Resolvem-se com literacia, exigência e responsabilidade.

Um primeiro passo essencial é a transparência. O uso de Inteligência Artificial em trabalhos académicos deve ser declarado de forma clara: quando foi usada, para que fins e em que etapas do processo. Tal prática não deve ser encarada como punição, mas como ética académica. Usar uma ferramenta não é, por si só, fraude. Fazer passar por próprio aquilo que não resulta de pensamento próprio, sim.

O segundo eixo é a avaliação. Na era da IA, insistir em trabalhos genéricos, previsíveis e replicáveis é pedagogicamente irresponsável. O Ensino Superior tem de valorizar aquilo que a máquina não substitui facilmente: exames orais, defesa pública de trabalhos, reflexão crítica, articulação entre teoria e experiência, estudos de caso contextualizados, argumentação sustentada. Avaliar é testar compreensão, síntese e pensamento autónomo, algo bem diferente da redação de textos mais ou menos corretos.

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida. Refiro-me à necessidade de ensinar a Inteligência Artificial, de forma a que os estudantes - e os professores - compreendam os limites da tecnologia, os seus enviesamentos, impactos éticos e sociais. Esta é uma competência académica básica que tem de chegar urgentemente aos curricula dos cursos. Formar licenciados, mestres e doutores preparados para a utilização crítica e responsável destas ferramentas exige mais dos estudantes, mas também dos docentes e das instituições. Obriga a repensar métodos, a investir em formação pedagógica e a abandonar modelos de avaliação herdados de um mundo que já não existe.

Proibir a Inteligência Artificial é uma resposta simples para um problema complexo. Ensinar e avaliar com Inteligência Artificial é um exercício exigente, mas incontornável. O Ensino Superior não existe para preservar modelos do passado, mas para preparar cidadãos e profissionais que viverão, decidirão e trabalharão num mundo onde a IA será omnipresente. Fugir a essa responsabilidade pode ser confortável; assumi-la é difícil, mas é a única opção intelectualmente defensável.

Professor catedrático

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