A captura de Nicolás Maduro e a operação norte-americana que a tornou possível não podem ser lidas apenas como um evento. Representam a materialização de uma doutrina: maximizar o efeito de poder, minimizar a exposição, e manter o controlo narrativo interno. A decisão de Donald Trump de não estacionar tropas em território venezuelano não é um pormenor táctico — é o centro de gravidade político de toda a estratégia.Nos últimos dias, a administração norte-americana descreveu a ação como uma operação limitada, evitando cuidadosamente o enquadramento de "invasão". Em simultâneo, Trump multiplicou afirmações maximalistas sobre "estar no comando" e sobre as exigências que faria a Delcy Rodríguez, agora figura central do arranjo interino em Caracas. A contradição — pouca presença no terreno, retórica grandiosa — é deliberada. Estamos perante um modelo de coerção à distância como substituto da ocupação.O instinto político de Trump. Trump governa com um instinto constante: vitórias rápidas, visíveis e pouco custosas. O risco que procura evitar não é apenas militar; é sobretudo político. Baixas elevadas e prolongadas em combate urbano ou guerra irregular são quase impossíveis de justificar perante o eleitorado norte-americano sem um objetivo existencial claro. Uma ocupação teria de lidar com colapso institucional, criminalidade organizada, redes armadas e fragmentação política — criando um ciclo de "mais tropas para estabilizar" com custos humanos e financeiros crescentes.O precedente histórico funciona como anticorpo automático: Iraque e Afeganistão ensinaram ao público e ao Congresso que "pântano" equivale a castigo eleitoral. Derrubar um líder pode ser relativamente simples; governar e estabilizar é o que aprisiona.O pântano potencial. Mesmo sem entrar em pormenores operacionais, há uma realidade estrutural que explica a prudência de Washington. A Venezuela acumulou aparelhos de coerção híbridos: forças de segurança politizadas, estruturas de vigilância e grupos armados pró-regime com capacidade de intimidação local. Um cenário de ocupação tenderia a converter essas redes num ecossistema de resistência irregular e sabotagem, sobretudo em ambiente urbano e nas zonas onde Estado e crime organizado se sobrepõem.O risco político é cristalino: um fluxo contínuo de baixas, sem "momento de vitória" definitivo, corrói apoio interno, fractura alianças e expõe a administração à acusação de aventura imperial.Mudança de regime sem ocupação. O modelo que se desenha é uma forma de regime change sem presença territorial prolongada — ou, mais precisamente, "mudança de topo com continuidade funcional". Primeiro, a decapitação do regime através de uma operação curta e de alta visibilidade. Segundo, o reconhecimento e pressão sobre uma liderança interina, exigindo entregas concretas em matéria de segurança, detenções, petróleo e normalização. Terceiro, a sinalização permanente de força para dissuadir resistências internas e atores externos como a Rússia e a China.O objetivo é obter resultados políticos e económicos sem a fatura de sangue e sem o ónus de administração de território. A escolha mais controversa reside precisamente aqui: ao apostar numa figura do próprio chavismo como pivô da transição, Trump parece preferir governabilidade imediata — a continuidade do aparelho de Estado — a uma rutura democrática plena. Mesmo que isso marginalize a oposição venezuelana e alimente a narrativa de "troca de guardas" em vez de transição genuína.A retórica como instrumento. A linguagem dura não é ruído: é mecanismo de credibilização. Para a base eleitoral, a mensagem é simples — "fizemos o que ninguém fez; fomos fortes; não nos atolámos." Para Caracas, a mensagem é ambígua mas eficaz — "cooperem e sobrevivem; resistam e serão castigados." Para Moscovo e Pequim, é sinal de que Washington está disposto a reativar uma leitura muscular do hemisfério ocidental.Esta diplomacia de coerção depende menos de presença física e mais de medo credível: sanções, estrangulamento financeiro, bloqueio, isolamento diplomático e ameaça latente de novas ações limitadas.O paradoxo estratégico. A abordagem minimiza custos imediatos, mas cria vulnerabilidades significativas. Em primeiro lugar, a questão da legitimidade: se a transição for percebida como tutela externa e continuidade chavista, a estabilidade poderá ser superficial e temporária. Em segundo lugar, o problema do moral hazard: ao premiar a máquina que sobreviveu a Maduro, Washington incentiva elites autoritárias a resistirem até ao limite, apostando que serão indispensáveis na reconstrução. Em terceiro lugar, a espiral regional: a operação e a retórica ampliam receios de intervencionismo e podem endurecer alinhamentos anti-americanos na América Latina.Finalmente, subsiste o risco interno: se a Venezuela entrar em caos prolongado — repressão, crise humanitária, violência —, Trump continuará associado ao resultado, mesmo sem tropas no terreno. Ganha-se a manchete sem herdar formalmente o país, mas pode herdar-se o fracasso na prática.Uma doutrina coerente. O que Trump parece estar a construir é um manual coerente com o seu ADN político: agir rápido, exibir força, evitar ocupação, converter medo em concessões e manter a narrativa doméstica sob controlo. Se funcionar, será apresentado como prova de que os Estados Unidos conseguem reordenar o hemisfério sem guerras longas. Se falhar, poderá ser recordado como um caso clássico de coerção sem plano de estabilização — onde a ausência de soldados no terreno evita baixas, mas não evita o colapso.Para a Europa e para Portugal, a questão que se coloca é outra: como posicionar-se perante uma América que regressa a uma lógica de esferas de influência e intervenção seletiva, enquanto exige dos aliados maior autonomia estratégica? A resposta a esta pergunta definirá, em boa medida, o futuro da relação transatlântica.