Em Lisboa reaprendemos a olhar para os oceanos

No final da década de 80 do século passado a então primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland, coordenou a publicação de um relatório intitulado O Nosso Futuro Comum, no qual faz a ligação entre as alterações climáticas e o desenvolvimento. É nesse mesmo texto que surge o agora corriqueiro termo "desenvolvimento sustentável". Se o mundo tivesse dado ouvidos às preocupações que o relatório identificou, teríamos tido tempo para dar resposta aos desafios que temos coletivamente pela frente. Não ouvimos e agora o tempo é pouco para o muito que temos de fazer.

Três décadas depois, já não nos podemos "dar ao luxo" de ignorar o que nos diz a ciência nem de aderir às aflições do mundo. E tratando-se de um só planeta, as soluções terão de ser comuns e partilhadas, incorporando as realidades e as preocupações de diferentes países com graus de desenvolvimento, situação geográfica e ambições diferentes. Essas soluções terão de incorporar o crescimento económico, o desenvolvimento social e a sustentabilidade ambiental, de forma coerente e dinâmica, pois só uma resposta integrada permitirá garantir o nosso futuro comum.

Nesta visão integrada, basta olhar para qualquer mapa do planeta para se tornar óbvio que a solução para os desafios do desenvolvimento sustentável passará sempre pela sustentabilidade dos oceanos, que cobrem 71% da superfície do planeta e são uma parte fundamental da gestão do clima. Sem oceanos saudáveis não haverá futuro para ninguém, quer viva à beira-mar ou em pleno deserto.

Assim, não podemos desperdiçar a oportunidade que a Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos - coorganizada por Portugal e pelo Quénia e que trouxe a Lisboa centenas de pessoas de mais de 140 países, organizações internacionais, ONG, centros de investigação e ciência, fundações e instituições financeiras - representa. Entre os aspetos centrais a que teremos de dar resposta está a passagem da economia dos mares para a economia azul sustentável, caso contrário não seremos capazes de encontrar soluções que conjuguem o crescimento económico, o desenvolvimento social e a sustentabilidade ambiental.

Para tanto, teremos de colocar a ciência no centro das nossas decisões - sobre o que podemos ou não fazer e como o fazer, dirigindo a procura de soluções tecnológicas necessárias para a utilização sustentável dos recursos marinhos e as competências profissionais que teremos de dominar. Por outro lado, importa regular de forma clara as atividades económicas nas zonas costeiras e no alto mar, de forma a que os agentes económicos e da sociedade civil conheçam as regras e limites da economia azul. Ao mesmo tempo, é necessário procurarmos novas formas de financiamento, mobilizando fundos públicos e privados de forma coordenada e complementar.

Finalmente, a economia azul sustentável terá de incorporar as preocupações dos mercados e dos consumidores, cada vez mais atentos e preocupados com os bens e os serviços que utilizam.

Em Lisboa o mundo juntou-se para debater e acordar uma nova forma de olhar para os oceanos.

Um olhar exigente que democratiza as oportunidades de crescimento e desenvolvimento e que congrega numa causa comum os estados, as empresas, as organizações da sociedade civil e cada um de nós.

Secretário de Estado da Internacionalização

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