Em alta velocidade para os comboios movidos a energia limpa

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Depois de muitos anos de discussão política sobre se deveria haver ou não alta velocidade ferroviária, o Governo de Luís Montenegro - com Miguel Pinto Luz à frente da tutela dos Transportes - parece mesmo empenhado em concluir este projeto, considerado estruturante para o país.

É possível que parte significativa do trabalho estivesse preparado de antemão, por Executivos anteriores e sobretudo pela IP - Infraestruturas de Portugal, mas faltava a decisão política e, depois disso, a determinação de não a deixar cair por questões orçamentais ou por pressões das opiniões publicadas. E o Governo percebeu, finalmente, que os portugueses estão já cansados de esperar por investimentos dos quais nunca mais chegam a fruir.

Ontem o Governo deu autorização para a compra dos 20 comboios de alta velocidade que vão operar em Portugal (desde já 12, com opção de compra de outros oito), por um valor de 584 milhões de euros. Ao mesmo tempo, lançou o concurso para o segundo troço da alta velocidade que liga o Porto a Lisboa, neste caso entre Oiã e Soure. O lançamento do terceiro troço (que depois ligará Soure ao Carregado) ficou prometido até final do semestre.

Há uma sensação de inevitabilidade neste projeto que dá alguma confiança aos envolvidos, desde as empresas que ganharam o concurso para a construção dos troços, às câmaras municipais que ficam no trajeto, até à própria CP, que parece finalmente encaminhada para acertar o relógio pelo milénio em que estamos.

É preciso, no entanto, que o projeto da alta velocidade venha a constituir algo mais do que uma cruzinha de “cumprido” no Programa do Governo da AD. O transporte ferroviário eletrificado é uma das formas mais eficazes e sustentáveis de transporte de pessoas e mercadorias. E tem o potencial de impulsionar empresas e setores em atividades que lhe estão conexas.

Será importante, por isso, que a alta velocidade seja encarada como apenas o mais moderno dos braços do sistema ferroviário português. E que não se caia na tentação de poupar alguma coisa não modernizando os outros braços. Só com esse esforço, o comboio vai receber a preferência dos portugueses, que ainda estão demasiados agarrados ao carro (e a combustão, para piorar a pegada) para as suas deslocações casa-trabalho-casa. E não é por capricho que o fazem, mas sim por necessidade imperativa (já que o serviço ferroviário não os consegue servir em condições e é profundamente desigual nos vários pontos do país).

Portugal bem precisa de correr mais rápido do que outros neste campo. Países vizinhos, como Espanha e França, há muito que viram todo o potencial deste setor.

No entanto, e ao contrário de Portugal, não podem dar-se ao luxo de o fazer, maioritariamente, com eletricidade verde.

O caminho que se começou a fazer no início dos anos 2000, de pontilhar o país com eólicas, parques solares, novas centrais hídricas, já está a dar frutos na nossa (maior) independência energética. Mas pode agora reduzir a nossa pegada carbónica e fazer andar uma extensa rede ferroviária com energia limpa. É o que se quer.

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