Elon Musk é putinista?

A caricatura de debate que temos tido sobre a guerra na Ucrânia ganhou esta semana mais umas linhas, graças ao inefável Elon Musk, o multi multi milionário que anunciou na semana anterior estar a preparar a comercialização, por 20 mil euros, de robôs humanoides capazes de, sozinhos, fazerem tarefas como carregar caixas, regar plantas ou apertar parafusos (espanta-me a tranquilidade das reações a esse anúncio, mas não é esse o tema deste artigo).

Musk, como muitos leitores já sabem, resolveu propor uma solução para a guerra em menos de 280 carateres, escritos no Twitter, a rede social dos pensamentos limitados.

As ideias que ele deixou são quatro: "Refazer as eleições das regiões anexadas sob supervisão da ONU. A Rússia sai se for essa a vontade do povo." "A Crimeia fará parte formal da Rússia, como tem sido desde 1783 (até ao erro de Khrushchev)." "O abastecimento de água à Crimeia é assegurado" e "a Ucrânia continua neutra", o que suponho querer dizer que não entra na NATO.

Musk publicou isto como se fosse uma sondagem, para os seguidores votarem "sim" ou "não".

Dizem as notícias que os fãs do dono da Tesla ficaram chocados, que há um mar de críticas e que até o presidente Zelensky foi também colocar no Twitter os seus 280 carateres de protesto contra Musk (e votar "não", suponho).

Fui ver e, à hora que escrevo, confirmei esses relatos, mas também vi algo que não estava nas notícias: a sondagem tinha 41% de pessoas a apoiar a ideia de Musk, o que não é tão pouco como isso (e ignoro os, na altura, 81 mil "likes", o maior número das estatísticas disponíveis nesse tweet).

As hipotéticas multidões ululantes e irritadas com o desvio à narrativa dominante no Ocidente esqueceram-se já que este Musk é o mesmo Musk que em 27 de fevereiro, três dias depois do início da invasão russa, ativou na Ucrânia, a pedido do governo local, o seu serviço de fornecimento de internet via satélite para ajudar o país a resistir às sabotagens e ocupações russas.

Os agora zangados com Musk já não se lembram que este é o mesmo famoso que glorificaram, aplaudiram ou saudaram pela ironia quando, a 14 de março, decidiu desafiar Vladimir Putin para um combate individual, tendo a Ucrânia como aposta.

A etiqueta "putinista", que é norma usar-se no Ocidente para insultar uma alma qualquer que fale em procurar soluções para a paz, não cola, portanto, neste personagem.

O que é que mudou para Musk, que, ainda por cima, faz este desarranjo numa altura em que a Ucrânia e a NATO proclamam vitórias no terreno e prometem a reconquista para breve?

Mudou, obviamente, a visão que o promotor de turismo espacial tinha sobre o problema: ele vê que os seus negócios globais nada têm a ganhar com esta guerra, pelo contrário, têm a perder, e muito.

Recorde-se, por exemplo, que na lista das razões faladas por Musk à imprensa para tentar renegociar a compra da rede Twitter está, precisamente, a dos efeitos económicos globais desta guerra terem desvalorizado a empresa e ela, alegadamente, já não valer os 44 mil milhões antes oferecidos.

Serão as propostas de Musk para a paz razoáveis? Bem, não diferem muito das que, para citar um exemplo insuspeito, o célebre filósofo e ensaísta francês Edgar Morin, depois de criticar duramente Putin, fez aqui num artigo publicado no DN a 7 de maio - e muitos outros analistas por esse mundo fora têm proposto mais ou menos isto, embora a maior parte não acredite que haja, neste momento, condições para o fazer.

Os muito ricos do Ocidente, face aos prejuízos provocados pela guerra prolongada, começam assim a fraquejar no apoio ao conflito.

Na Europa é provável que os "Musks" de alguns grandes conglomerados globais comecem mesmo a irritar-se com tantas perdas financeiras (as humanas não entram neste balanço) e a barafustar por, contraditoriamente, registarem-se ganhos brutais noutros conglomerados que beneficiam com a economia de guerra.

Uma hipotética rutura da solidariedade capitalista ocidental mudaria rapidamente governos, políticas governamentais e narrativas mediáticas - e a atual ideia prevalecente de que esta guerra define o destino do ocidente pode bem não ser suficiente para o impedir, caso tudo se prolongue no tempo e as contradições dentro do sistema se acentuarem.

Mas, para já, como sempre, serão mais debatidas as sondagens de Musk no Twitter do que as sondagens dos jornais - como uma do Expresso, que dizia que 32% da população portuguesa, aflita para pagar as contas do mês, quer mesmo "cedências a Putin" (sic) e resolver a guerra... são todos putinistas, não é?

Jornalista

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