Um continente de dúvidas. A certeza da obrigação da mudança

Chegar à viragem do ano com dúvidas sobre o que será a evolução da Europa no ano seguinte é um cenário que, infelizmente, se tornou cada vez mais habitual. Desde o início da crise financeira - e sobretudo da crise das dívidas soberanas - que o projeto europeu tem vindo a mostrar as suas fragilidades e a fazer nascer todas as dúvidas sobre a capacidade de a Europa funcionar enquanto bloco único. Poderá questionar-se o leitor então sobre o porquê de, nesta edição, estarmos a lançar o desafio de refletir sobre o que será o futuro da Europa. A resposta é simples: é que as dúvidas que colocávamos ao longo dos últimos anos tinham uma base essencialmente financeira, sobre a solidez do euro ou a capacidade de financiamento dos Estados. Dúvidas que foram parcialmente dissipadas com a intervenção do Banco Central Europeu. E neste final de 2016 o problema é claramente mais abrangente do que a questão financeira.

Hoje, a Europa tem pela frente desafios de ordem política, social, económica, ambiental e tecnológica. E o maior desafio, que é transversal a todos estes temas, é o de saber como atuar sem sucumbir ao medo que temos visto como o motor das ações sociais e políticas ao longo dos últimos meses. Quando falamos aqui de medo, não estamos a falar de um medo óbvio, relacionado com a segurança e com a ameaça do terrorismo (a que a Europa também terá de dar resposta). Não, este medo é o medo que leva a atitudes protecionistas, que leva a aceitar discursos populistas, é o medo que trava a criação de oportunidades para quem vem de fora, para quem é mais novo, para quem propõe um modo diferente de se relacionar com os clientes e a economia. Um medo que ganha força na sociedade do "pós--verdade", em que o que é projetado nas redes sociais tem materialização nos comportamentos sociais e políticos, como vimos nas eleições recentes. E que cava mais fundo o gap entre gerações.

É por tudo isto que precisamos de pensar no que quer a Europa em 2017 e para onde caminha este projeto. Qual será a atitude dos líderes europeus perante uma nova presidência norte-americana, que se adivinha mais "brusca" na diplomacia? Até quando vai Mario Draghi manter o BCE a funcionar como linha de sobrevivência das economias europeias, sobretudo das periféricas como Portugal? Que ondas de choque deixará o brexit? São algumas questões óbvias que se põem para os próximos meses e que os artigos desta edição especial do DN ajudam a antecipar.

Mas há outros problemas, problemas de fundo, que têm de ser endereçados desde já a uma escala global e que a Europa pode liderar. Há dois que se destacam: as alterações climáticas e a desigualdade de rendimentos. No que toca ao primeiro, é importante que não nos deixemos cair na indiferença perante notícias que nos deviam inquietar. Neste ano tivemos o mês mais quente alguma vez registado (Julho) e o conjunto de 2016 arrisca-se a ser o ano mais quente nos registos. As mudanças estão à vista, os alertas sucedem-se, mas tarda a acção para além das declarações de boas intenções. Pior, estamos agora com novas manifestações de negação por novos líderes mundiais. A Europa tem condições para implementar políticas de produção e gestão de energia que ajudem a colmatar este problema, se souber recuperar o papel de liderança que já teve neste domínio. Saberemos dar resposta já a partir de 2017? Fica a dúvida. Quanto ao segundo tema, é fundamental que a Europa saiba criar as condições para promover uma sociedade mais equilibrada e justa, pois só essa paz social dará a estabilidade necessária para que o projeto europeu continue a crescer. E se olharmos para as mudanças significativas que se acentuarão no mercado de trabalho, com a crescente automatização de muitas funções (as estimativas apontam para mais de 45% das actuais), mais premente é termos a sociedade preparada - em novas competências, novos tipos de segurança social e mudanças nos sistemas de saúde de pensões - para essa nova realidade económica e social, esperando que se reconheça que nove em cada dez postos de trabalho industriais no mundo ocidental foram "perdidos" na primeira década deste século pela automatização e não pelo comércio. Mas o mundo não é plano e a globalização não é (infelizmente) inevitável ou irreversível, e a teoria económica e da gestão têm sido claramente ingénuas em relação à política. Esperam-nos mais políticas nacionalistas, mais proteccionismo e mais populismo? Depende de nós e da nossa integridade propor soluções reais.

2016 foi um grande ano para aqueles que gostam de pregar a inevitabilidade das catástrofes. Este é o momento de refletirmos, fazermos o balanço do ano que passou e prepararmos o que se avizinha. A Europa não pode continuar num estado de relativa cegueira em relação à aleatoriedade do tempo presente e sobretudo em relação à adopção das mesmas velhas soluções para novos problemas, sabendo-se que já não têm os resultados que se julgavam possíveis. A adopção exclusiva da política monetária e de dinheiro (dívida) barato tem poupado Estados e agentes às mudanças inevitáveis, adiando aquilo que temos de fazer. É importante que todos façamos esta reflexão e sejamos, cada vez mais, agentes da mudança, aproveitando as vantagens da tecnologia que deve tornar a democracia cada vez mais participativa. Para que, quando voltarmos a fazer este exercício no final de 2017, possamos estar mais seguros de para onde vai a Europa. Bom ano!

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