Um coelho da cartola

Ontem, dia de arranque do Congresso do Partido Socialista, o presidente do PSD tirou um coelho da cartola. Agarrando naquela que é uma das suas principais bandeiras, a urgência de reformar a Segurança Social para garantir sustentabilidade, Pedro Passos Coelho convocou o PS para a negociação. E, desta vez, seguiu a estratégia certa. Ao dar garantias de que não pretende alterar o modelo que está em vigor - isto é, que não mexe no princípio de retribuição em que os trabalhadores ativos assumem o pagamento das pensões atuais -, de que abdica do plafonamento e de que a poupança necessária de 600 milhões não se fará à custa de cortes nas pensões em pagamento, Passos deixa pouca margem a António Costa para rejeitar conversas. Na verdade, o caminho que o líder do PSD decidiu seguir foi o de expurgar de preconceitos ideológicos o debate sobre a reforma da Segurança Social e, desse modo, colocar no PS o ónus de um eventual fracasso nesta negociação. É certo que, tendo em conta o passado mais ou menos recente, a ficha de Passos Coelho em matéria de credibilidade e confiança no que respeita ao cumprimento de palavra dada não está limpa. Mas fechar as portas ao diálogo com o líder do PSD sobre esta matéria apenas com base no passado seria um erro trágico, na medida em que todos reconhecem que esta é uma reforma prioritária para garantir o futuro do sistema de pensões. E, por outro lado, seria também uma manifestação de sectarismo assente exclusivamente num processo de intenções contra o líder do PSD. O PS, como ontem alguém dizia, é o único partido da democracia portuguesa que pode gabar-se de já ter partilhado responsabilidades governativas com todas as forças políticas que tradicionalmente chegam ao Parlamento. Será bom que António Costa aproveite esta manifestação de vontade para manter essa tradição. Se o não fizer, quem perde é o país e, no limite, os pensionistas do futuro.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG