Os medíocres contra Pacheco

O novo ministro da Cultura, João Soares, convidou José Pacheco Pereira para a administração da Fundação de Serralves. Mal se soube da notícia armou-se o salsifré habitual, típico dos invejosos e dos medíocres. Que não há almoços grátis disseram alguns aludindo ao facto de Pacheco Pereira ter sido dos críticos mais ferozes do anterior governo PSD-CDS e que agora tinha chegado o momento de "pagar o frete". Que o historiador e colunista é igual a todos os outros políticos e que não resiste a "comer da gamela do Estado" disseram outros desprezando, por ignorância ou má-fé, que Pacheco Pereira só aceitou esta nomeação porque se trata de um cargo não remunerado e sem prebendas. E houve até quem, entre os seus companheiros de partido, se apressasse a interpor uma ação disciplinar contra ele com vista à sua expulsão do PSD. De facto, os partidos portugueses convivem pessimamente com os espíritos livres e com todos os que pensam pela própria cabeça. É certo que têm de existir regras de militância e que o seu não cumprimento deve prever a aplicação de sanções. Mas nenhum democrata pode subscrever a punição de quem quer que seja por delito de opinião. Pacheco Pereira tem, obviamente, mais do que currículo e qualificação para a função que agora aceitou e para a qual foi convidado. Estranho é que só agora se tenham lembrado dele para integrar a administração de uma fundação com as características da de Serralves, mesmo que seja para um lugar não executivo. Intelectual, investigador, historiador, arquivista, Pacheco Pereira não corresponde ao perfil das clientelas ignorantes que os partidos servem oferecendo-lhes, não raras vezes, lugares de gestão ou administração mesmo que não tenham qualidade ou sequer dimensão para arrumar gavetas. Além disso, o ex-líder parlamentar do PSD é alguém maior do que o partido a que pertence e que não precisa de favores ou benesses de quem quer que seja para se afirmar. Acresce que não é a primeira vez que Pacheco Pereira revela desprendimento ou desapego. Em 2004, poucos dias antes de Durão Barroso ter decidido emigrar para Bruxelas, Pacheco tinha aceite o convite do então chefe do governo para o mais disputado lugar da diplomacia portuguesa, o de embaixador na UNESCO. Porém, mal se soube que Santana Lopes iria ser primeiro-ministro, Pacheco apressou-se a comunicar a sua indisponibilidade recusando as mordomias de um palacete em Paris. Podemos discordar, e eu sou dos que discordam, que haja quem abdique de ser remunerado pelo exercício de funções públicas. Acredito, sinceramente, que o não pagamento de uma retribuição ou salário diminui a capacidade e o poder da obrigatória sindicância. Mas o que é intolerável é que se veja nesta nomeação um agradecimento por serviços prestados. Quem assim pensa e o diz sem pudor só pode ser medíocre ou invejoso.

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