O que diz Marcelo

A mensagem do Presidente da República é clara. Até às eleições autárquicas do próximo ano - etapa que uma vez cumprida abre um novo ciclo - não há espaço para instabilidades ou crises políticas. Ou seja, Marcelo está a ser Marcelo, que é como quem diz, faz análise de curto prazo. Nas últimas semanas, os afetos e os sorrisos têm dado lugar a ferroadas e a alguns alertas. Depois do amparo dos primeiros tempos de coabitação, a realidade estatística e a crueza dos números acabaram por arrefecer as relações entre o Presidente e o primeiro-ministro. O aparente distanciamento começou na semana passada. A 17 de maio, depois de conhecidos os resultados económicos do primeiro trimestre, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que pode vir a ser necessário rever em baixa as previsões de crescimento para este ano, ainda que "sem alarmismos mas com lucidez". Dois dias depois, ainda na ressaca da avaliação económica negativa e com o governo a recusar alterar as previsões, Marcelo enfatizou o "otimismo ligeiramente irritante" de António Costa. No tempo que se seguiu foram saindo previsões nacionais e internacionais sobre a economia portuguesa que acentuam a desconfiança em relação ao cumprimento das metas estabelecidas pelo governo. O quadro político em que Marcelo se move tem, por isso, duas variáveis além da fragilidade da economia portuguesa. Por um lado, o Presidente da República sabe que não pode continuar colado em absoluto às opções políticas de António Costa e a irradiar felicidade com os resultados da governação. Tem de ter margem para se distanciar em caso de fracasso para não ser arrastado pela corrente de uma eventual crise política e económica. O que não significa, necessariamente, posicionar-se como "força de bloqueio". E, por outro lado, apontando ao pós-eleições autárquicas está também a enviar recados para dentro do PSD. Ou seja, aquilo a que Marcelo chama de novo ciclo implica também a substituição de Pedro Passos Coelho na liderança do partido em caso de derrota eleitoral em 2017. Seja como for, o que diz Marcelo é muito simples: o Orçamento para o próximo ano é para aprovar, custe o que custar. Mas a estabilidade, sendo um bem escasso e essencial, não é um fim em si mesmo. E o barómetro do Presidente/analista são as próximas autárquicas.

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