Ninguém se entende no FMI

Vítor Gaspar foi, no governo de Pedro Passos Coelho, um dos mais fiéis intérpretes da política de empobrecimento e de destruição criativa de Schumpeter. Quando decidiu demitir-se de ministro das Finanças no verão de 2013, assumiu que o incumprimento sucessivo dos objetivos orçamentais resultantes das opções políticas por si protagonizadas "minou" a sua credibilidade e, por isso, não lhe restava outra alternativa que não fosse abandonar o barco. Foi o que aconteceu. Hoje, diretor do departamento de assuntos orçamentais do FMI, Vítor Gaspar parece ter posições diferentes das do ministro das Finanças que diabolizava o financiamento público à economia e que anunciou ao país um "enorme aumento de impostos" que estrangulou as famílias. Em entrevista ao Expresso, dada a partir de Washington, Gaspar defende que os governos devem apostar no aumento do investimento público e adotar políticas orçamentais orientadas para o crescimento económico através de estímulos ao consumo. É caso para dizer "quem o viu e quem o vê", professor Gaspar. O mais curioso, no entanto, é que as declarações do ex-ministro das Finanças surgem no dia seguinte a Poul Thomsen, o primeiro chefe da missão do FMI em Lisboa no tempo do resgate, ter afirmado que "Portugal está na direção errada". Na verdade, o que estas duas posições aparentemente contraditórias revelam é que ninguém se entende no FMI. Isto é, Vítor Gaspar, com a experiência e o saber acumulados da governação e os resultados nefastos que obteve, percebeu - tarde é certo - que o desenho dos programas de ajustamento é errado e tem consequências negativas para as economias dos países intervencionados. Já Poul Thomsen, avaliando um Orçamento que, mal ou bem, aponta um caminho diferente do que foi seguido nos últimos quatro anos - e não está em causa qualquer juízo de valor sobre o mérito das opções políticas do atual governo -, prefere persistir no dogma e na teimosia do FMI cujo cadastro de destruição é público e notório. É verdade que estamos sempre no domínio da fé. Mas, em relação a Vítor Gaspar, é caso para dizer duas coisas, uma boa e outra nem por isso: a primeira é que só os inteligentes é que evoluem nas suas posições. A segunda é que, no que respeita ao ex-ministro das Finanças, aplica-se a máxima "olha para o que eu digo e não para o que eu faço".

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