Burquíni dá votos

Por agora é proibido proibir o burquíni em França. Mas é uma decisão de mais alta instância administrativa que não só não resolve nada - por limitar-se a suspender a proibição - como está já a ser desafiada por autarcas que garantem que nas praias da sua terra não haverá muçulmanas tapadas. Que alguns políticos ameacem desrespeitar o Conselho de Estado de modo aberto significa que contam com o apoio da opinião pública, pelo menos local. Mas é evidente que os franceses estão divididos entre os que veem o burquíni como um atentado ao laicismo e aqueles que consideram os proibicionistas uma outra versão de fundamentalistas.

Há cinco milhões de muçulmanos em França, na sua maioria de origem magrebina. Há exemplos de integração perfeita, seja como académicos ou ministros, mas também casos de rejeição dos valores da República Francesa e de atração pelo jihadismo. Entre estes dois extremos existe uma massa imensa de franceses seguidores do islão que não devem ser humilhados, porque é injusto e porque fazê-lo é confirmar as teses do Estado Islâmico que apela à guerra santa na Europa e já levou o terror a França.

Com eleições presidenciais no próximo ano e Marine Le Pen forte nas sondagens não faltam os rivais que tentam imitar o discurso securitário da extrema-direita. Mas se proibir o rosto tapado é defensável por razões de segurança e até do direito da mulher a ter uma identidade, já perseguir o uso do burquíni surge como absurdo, mesmo que seja desonesto comparar esse traje com o fato dos surfistas ou o equipamento de motoqueiro como têm feito alguns nas redes sociais. França para se sentir segura tem de combater o terrorismo e ganhar a batalha de integração. Os muçulmanos têm de aceitar ser franceses mas também de querer ser franceses. Não é com a proibição do burquíni que se conseguirá isso de certeza, mesmo que renda votos no atual clima emocional.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG