Balanço

Seis meses depois de ter tomado posse o mais inusitado governo do pós-25 de Abril, muita coisa aconteceu. Desde logo, o inevitável choque com a realidade obrigou António Costa e a sua aliança parlamentar com as esquerdas a cederem ao pragmatismo e à crueza dos números. É certo que nunca ninguém disse que ia ser fácil, mas a verdade é que quem ouvisse os partidos que suportam o governo no arranque da atual legislatura seria conduzido a pensar que bastava fazer voz grossa em Bruxelas e as pretensões de Lisboa eram imediatamente atendidas. Não foi assim no passado com outros governos, naturalmente também não é assim com este. António Costa e os seus ministros foram forçados, por imposição de Bruxelas, a descer à terra e a rever em baixa o seu "otimismo irritante", como lhe chamou o Presidente da República. O crescimento já não será aquilo que estava nas primeiras folhas de Excel, a devolução de rendimentos acontece de forma mais lenta do que foi desejado e prometido, a reposição de direitos - o exemplo maior é o regresso à semana de 35 horas de trabalho - também está por concretizar. Tem sido, aliás, este capítulo um bom exemplo de desafinação entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, o que é pouco natural, e até de alguma efervescência entre o governo e os partidos à sua esquerda, o que seria de esperar. Seja como for, e António Costa ontem lembrou-o, a "geringonça", na expressão de desprezo da direita, tem funcionado e as catástrofes que se anunciavam foram manifestamente exageradas. No Parlamento e fora dele, os últimos seis meses foram de coesão política e de gestão hábil. E isso só foi possível até agora porque PS, Bloco e PCP inovaram ao decantar o que os separa, que é muito, e entenderam-se no que os une. Este acordo político assenta exclusivamente numa política de reposição de rendimentos, o que é curto. Sobretudo se tivermos em conta que há dois muros gigantescos a separar os partidos que suportam o governo. Por um lado, os compromissos europeus e, por outro, o sistema financeiro, que é, sem qualquer dúvida, um dos maiores obstáculos à sobrevivência da solução política atual. Isto é, sendo uma incógnita o futuro do Novo Banco e não sendo de excluir uma nova crise bancária, se a banca continuar a drenar recursos públicos, é evidente que o dinheiro não vai chegar e o investimento público será ainda mais escasso do que é hoje. E se a isto somarmos a incerteza internacional, talvez seja impossível dizer onde é que vamos estar daqui a seis meses.

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