Alô, governo?

António Costa apresentou na terça-feira o Programa Nacional de Reformas. Era suposto ser um momento alto e não o desastre de comunicação política em que se converteu. Tinha como objetivo fazer avançar o país, nem que fosse alguns centímetros, mas remeteu Portugal para a pré-história deste tipo de eventos. Alguém conseguirá lembrar-se hoje, 48 horas depois, de uma só ideia luminosa ou pelo menos de uma ideia em segunda mão (usada como nova) capaz de captar a imaginação do país? Comecemos pelo evidente: estes documentos são quase sempre uma maçada. Dividem-se em pilares, que se fatiam em categorias, que se distribuem por pontos intermináveis recheados de palavras gastas (empreendedorismo, diversificação...) que recheiam a língua de trapo institucional. Mas se estes dossiês são chatos, também é verdade que são necessários. Servem para conhecer os bons e os maus planos dos governos e, quem sabe, festejar alguma meta cumprida ou zurzir e compreender os falhanços. Isto é, servem para enumerar e medir. Servem também para outro fim: comunicar - ou seja, acordar empresas e empresários, ainda hoje em modo esperar para ver no que diz respeito ao investimento, com consequências perigosas para a economia. Ora bem, se os frutos podem tornar-se apetitosos, como explicar a bagunça que rodeou a apresentação de António Costa? Os duros do regime dirão que a forma interessa pouco, o que conta é a substância, mas então governar dez milhões de pessoas talvez não seja o melhor ramo de atividade para estes talentos. Governar implica explicar e envolver. Temos o exemplo excessivo de José Sócrates, muita pirotecnia com um incêndio monstruoso no final. Ou então o de Passos Coelho, um governo tão acossado que preferia o facto consumado. António Costa talvez possa escolher o meio-termo, não pode é ficar a meio da ponte, em lado nenhum. Se o primeiro-ministro acredita no Programa Nacional de Reformas, que o explique em condições às pessoas. Estamos ainda a tempo de o ouvir.

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