A gula política pode resultar em suicídio

A bomba que Pedro Passos Coelho lançou ontem, em visita à zona do incêndio em Pedrógão Grande, estourou-lhe nas mãos. Tivesse havido suicídios e as declarações seriam igualmente más, seriam igualmente irresponsáveis. Não havendo suicídios, um que fosse, passou a haver, pelo menos, uma tentativa de suicídio político. Com isso, o líder do PSD deu espaço ao governo para respirar.
Tão depressa nos apresentaram Passos Coelho como mensageiro das más notícias como o apresentaram no papel de vítima, dizendo-nos que essa falha incompreensível do líder da oposição resultou de informação falsa, fornecida pelo candidato do PSD à Câmara Municipal de Pedrógão Grande. Uma adenda à irresponsabilidade política de Pedro Passos Coelho, apenas diminuída pelo pedido de desculpas feito algumas horas depois.
Um político tem de saber fazer gestão rigorosa da informação que recebe. Confirmada que tivesse a informação de um suicídio, ou de vários suicídios por "falta de apoio psicológico" como disse Pedro Passos Coelho, o líder do PSD tinha duas opções: ou não fazia aproveitamento político da desgraça alheia, recusando-se comentar, ou exigia saber se tinha havido o necessário apoio de psicólogos àquelas populações, sem imputar a essa eventual falha a causa específica dos alegados suicídios.
O que se torna evidente, com o infeliz episódio de ontem, é que existe o receio de que o tempo a passar leve ao esquecimento, à indisponibilidade das pessoas para ajustes de contas entre políticos. Tão grande foi a tragédia, tantas foram as falhas do Estado, que há pressa em encostar o governo às cordas.
A verdade é que a dimensão da tragédia de Pedrógão Grande deveria levar todos os partidos políticos, apoiantes do governo ou da oposição a libertar-se da hipocrisia política, bem evidente na posição que cada um assume. Como não estranhar as falas mansas dos dirigentes do PCP e do Bloco nestes dias, comparadas com as declarações inflamadas perante incêndios menos graves mas que aconteceram com estes partidos na oposição? Como não estranhar que o PS no governo exija uma contenção que raramente teve quando estava na oposição?
Não deixa de ser igualmente estranho que tenha sido o PSD, que se vinha mantendo num registo elogiado por vários setores da sociedade, a dar este tiro no pé. É cada vez mais certo que há setores do PSD a sofrer do pecado da gula, tanto querem tirar proveito político desta tragédia que acabam a aconselhar muito mal o líder do partido.

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