E que tal uma espreitadela ao exemplo alemão

Na sequência do resultado das recentes eleições na Alemanha, o SPD, os Verdes e os Liberais, fecharam-se numa sala, silenciosa e discretamente, durante dois meses. No final apresentaram ao povo alemão um acordo de regime e um conjunto concreto de medidas a aplicar durante a legislatura. São partidos ideologicamente nos antípodas uns dos outros, mas isso não os impediu de se focarem no essencial, ou seja, as melhores medidas para a Alemanha e para o interesse do povo alemão.

Sim, medidas muito concretas, como a construção de 400 mil casas para suprir as carências de habitação, a antecipação do fim da energia a carvão para 2030, a subida do salário mínimo de 9,6 para 12 euros/hora. O concreto do que interessa ao povo alemão, diferente do blá, blá , blá partidário tão frequente no nosso país.

É muito provável que não venhamos a ter maiorias absolutas saídas das eleições de 30 de janeiro e que, a curto prazo, venha a ser necessário o estabelecimento de coligações ou acordos parlamentares que tornem Portugal governável.

Assim, os partidos, sem excepção, é bom que olhem para os alemães e sigam o seu exemplo.
Por agora, já em modo de pré-campanha eleitoral, vamos tendo a conversa sonsa das "maiorias reforçadas" ou das "maiorias confortáveis", mas na eventualidade de isso não vir a acontecer, os portugueses não perdoariam aos partidos políticos com mais probabilidades de ganhar as eleições, que não subscrevessem acordos, ou estabelecessem coligações, assumidas, com programas concretos, transparentes, com uma rigorosa listagem de medidas, despidas da habitual verborreia partidária. Num exercício de egoísmo discursivo, de momento as forças políticas não revelam com quem farão alianças caso não alcancem maioria absoluta. Mas deveriam fazê-lo com toda a clareza, no sentido de possibilitar uma escolha mais fácil dos eleitores portugueses.

É tempo de acabar com a opacidade política que tem marcado o panorama português. Seria bom que os partidos políticos se modernizassem, eliminassem alguma da sua estéril ideologia, fossem pragmáticos, deixassem as guerras intestinas e desgastantes em que, por vezes, se envolvem, e encontrassem as melhores soluções para resolver os graves problemas do país.

Tudo isto é uma questão de maturidade democrática. Mas fiquem certos de que se não mudarem a prática e o discurso para as questões mais urgentes e cadentes da sociedade portuguesa, pagarão eleitoralmente por isso no futuro a médio e longo prazo. E, sobretudo, não venham depois queixar-se do crescimento das forças da extrema-direita. Isso deve-se, em especial, à incapacidade dos partidos que habitualmente assumem a governação, em solucionarem os problemas da população portuguesa.

Assim, seria bom dar uma espreitadela ao exemplo alemão, seguir a sua metodologia, o seu modus operandi. O acordo a que chegaram o SPD, os Verdes e os Liberais, são 177 páginas de medidas muita concretas. E não restem dúvidas de que as três forças políticas tudo farão para as tornar realidade, cumprindo o acordo a que se comprometeram.

Oxalá que, por cá, uma vez por todas, consigamos construir também as nossas 177 páginas de matéria palpável e não de pura narrativa política sem conteúdo.

Jornalista

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