É preciso investir na eliminação de fatores de risco do cancro oral

A alta incidência de casos de cancro oral e faringe torna-se particularmente preocupante quando consideramos que ainda provocam uma elevada taxa de mortalidade em Portugal. Neste Dia Mundial do Cancro da Cabeça e do Pescoço é fundamental dizer que a aposta na prevenção e no diagnóstico precoce pode mesmo salvar vidas.

São detetados aproximadamente 1600 novos casos de cancro oral e faringe por ano em Portugal. De acordo com a Ordem dos Médicos Dentistas, este é o sexto cancro mais frequente em todo o mundo. Esta alta incidência torna-se particularmente preocupante quando consideramos que o cancro oral ainda carrega uma elevada taxa de mortalidade em Portugal, sendo superior a 60% nos 5 anos após o diagnóstico e tratamento.

O cancro oral é uma doença que pode ser prevenida. Com uma postura ativa na prevenção podemos mesmo impedir que se desenvolva uma lesão maligna. E quando não é possível, é o diagnóstico precoce que salva vidas. A maior parte das lesões continuam a ser detetadas numa fase tardia.

Ao contrário de outras localizações do nosso corpo, a boca é de fácil acesso para ver alterações ao que é normal. Tanto por autoexame em casa ou por exame de rotina realizado por um profissional de saúde, é esta facilidade de inspeção visual regular que nos permite antecipar o cancro oral ou detetá-lo muito cedo.

Numa fase inicial, é comum o cancro oral parecer ser uma afta ou ferida que não cicatriza em duas a três semanas, ou um nódulo ou aumento de volume das mucosas, tipicamente rígido e persistente. No início, geralmente, não existe qualquer sintoma, sendo que, gradualmente, estas lesões tendem a manifestar-se de forma dolorosa.

O tabaco e o álcool continuam a ser os principais fatores de risco. A ingestão de 3 a 4 bebidas alcoólicas por dia duplica o risco de cancro oral. Os fumadores têm um risco 5 a 7 vezes superior de desenvolverem esta doença.

Existe ainda um grupo de lesões que, não sendo malignas, têm alguma probabilidade de o virem a ser. São as chamadas lesões potencialmente malignas e a mais comum é a leucoplasia. Apresenta-se como uma placa branca, mais tipicamente única e homogénea, que não desaparece. Esta placa branca não é normal e a sua deteção e remoção total são a verdadeira intervenção precoce no cancro oral, uma vez que elimina o risco de transformação maligna dessa lesão. Por outras palavras, um possível cancro não se chega a desenvolver se diagnosticarmos e tratarmos estas lesões.

Adicionalmente, têm sido notórias as mudanças nos padrões de cancro. O aumento da longevidade não será o único fator a considerar, já que a epidemia do cancro nos países desenvolvidos é também devida à elevada prevalência de fatores de risco.

De um modo geral e transversal a todas as neoplasias malignas, não há dúvidas, na comunidade científica, que os hábitos e estilos de vida mostram ter um impacto significativo no desenvolvimento e progressão de cancro. Esta é outra vertente fundamental a ter em conta quando falamos em prevenção: a eliminação de fatores de risco.

O tabaco e o álcool continuam a ser os principais fatores de risco. A ingestão de 3 a 4 bebidas alcoólicas por dia duplica o risco de cancro oral. Os fumadores têm um risco 5 a 7 vezes superior de desenvolverem esta doença. Estas probabilidades disparam quando ambos os hábitos estão associados. Também, cada vez mais evidente é a importância de um padrão alimentar saudável, focado na baixa ingestão de carne vermelha e na ingestão generosa de frutas e vegetais.

As vitaminas e antioxidantes das frutas e vegetais aceleram o sistema imunitário e, por isso, ajudam a protegê-lo. Por exemplo, concentrações mais altas de carotenos, encontrados em vegetais como a cenoura e a abóbora, estão associados a um risco menor de tumores mais agressivos. A própria forma de confeção dos alimentos tem-se mostrado importante. Em vez de fritar, é melhor assar, ferver, grelhar ou cozinhar a vapor. Cozinhar de forma saudável também ajuda a manter o peso ideal. A obesidade é cada vez mais considerada um fator de risco para o cancro, em geral. Outro fator de risco a considerar é a exposição solar excessiva, que é a principal causa de cancro do lábio.

Também a relação com infeções virais tem vindo a ser demonstrada em diversos estudos, nomeadamente, a infeção pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV), o que poderá também justificar esta mudança no padrão do cancro, que passa a ser uma doença cada vez mais prevalente em indivíduos mais jovens e não-fumadores. Reduzir o risco para o HPV é mais um passo na prevenção do cancro oral. De salientar que está provado que a vacina do HPV funciona como prevenção não só para o cancro do colo do útero, mas também para o cancro da cabeça e pescoço.

Sabemos que muitos casos de cancro oral podem ser prevenidos. Faça o autoexame da boca regularmente em casa, visite o seu médico dentista a cada seis meses e invista na eliminação de fatores de risco.

Especialista em Medicina Dentária na CUF Braamcamp, CUF Santarém e CUF Sintra

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