É fácil, é barato e destrói a vida de milhares de portugueses

Numa atitude leviana, oportunista e de fazer corar de vergonha qualquer português, o Governo decidiu colocar à venda a raspadinha do Património, dedicada à salvaguarda e valorização do património cultural.

Dito assim, não parece tão repugnante quanto é, mas é!

"Para que cada cidadão se sinta parte da missão nacional de preservar o património. Fazer com que cada um de nós se sinta parte de algo que tem de ser de todos." - foram estas as expressões utilizadas pela Ministra da Cultura, Graça Fonseca, para justificar o injustificável.

Em primeiro lugar, não, não é uma missão de todos. É uma missão do Estado para a qual já todos contribuímos de sobremaneira!

Num país onde a carga fiscal é demasiado alta, tendo em conta o PIB per capita nacional, é justo colocar nos cidadãos a tónica de uma missão que devia ser do Estado? Para que serve a enormidade de impostos que pagamos todos os dias?

E como se isso não bastasse, lança mão de um instrumento absolutamente perverso como é o "jogo", com o objetivo benévolo de salvaguarda do património cultural, branqueando dessa forma a incompetência do Governo que há anos tem negligenciado a cultura, bem como o seu património imobiliário.

E todos ficamos a assistir a isto, impávidos e serenos.

O problema do "jogo" em Portugal está a ficar muito sério.

Em fevereiro último, o psiquiatra Pedro Morgado alertava o país para uma "epidemia das raspadinhas" em Portugal. Já em 2015, os investigadores da Escola de Medicina da Universidade do Minho relatavam casos de cidadãos que perderam os seus empregos, as suas famílias, por causa do vício das raspadinhas. Trata-se de pessoas que gastam em raspadinhas o equivalente aos seus rendimentos para todo o mês, que necessitam de ajuda, às quais temos de acudir e não incitar um comportamento altamente lesivo da sua saúde mental e do seu bem-estar socioeconómico, à boleia de uma boa desculpa.

Veja-se: em 2020, os portugueses gastaram, em média, 3.9 milhões de euros diários em raspadinhas. Mas em 2019, os gastos rondavam os 4,7 milhões de euros diários. Os números só desceram face a 2020, por causa dos sucessivos confinamentos. Por outro lado, o volume de apostas no jogo online ascendeu a 5.692,2 milhões de euros no ano passado, uma subida de 65% face a 2019. Os portugueses apostaram 10.800 euros, por minuto, em jogo online no ano da pandemia. Isto deve fazer-nos refletir.

Apesar de o valor gasto diariamente em raspadinhas ser, já de si, muito preocupante, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa divulgou, em abril, um estudo que revela que 80% das pessoas que mais jogam são de classe média baixa e classe baixa. O que significa que o valor gasto por pessoa é muito mais alto do que a divisão dos 4 mil milhões de euros pelos 10 milhões de portugueses, - e isto é verdadeiramente chocante.

O Governo devia, isso sim, regular as vendas deste tipo específico de jogo, ao invés de aproveitar-se das receitas das apostas para fazer o que já devia estar feito, e à custa do incitamento ao jogo.

As políticas de regulação efetivas requerem-se ainda mais, neste caso, por sabermos da fácil acessibilidade das raspadinhas, da ideia de que oferecem um milagre de enriquecimento instantâneo sem que para isso sejam necessários específicos conhecimentos, e por não ignorarmos que em tempos de crise os mais frágeis estão mais permeáveis às ideias mais irrealistas, como é esta de resolver todos os problemas com raspadinhas.

Mas assim continuamos a sustentar um governo ensandecido, que apesar de minoritário, é arrogante e incompetente e que comanda um país cada vez mais adormecido, anestesiado, incapaz de acordar e almejar melhor.

Podia ser outra a nossa sorte...

Deputada do PSD

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG