E depois da Ucrânia?

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Além de um conflito entre dois nacionalismos, a guerra da Ucrânia é, principalmente, uma maka geopolítica. No primeiro desses dois planos, não tenho dúvidas de que, qualquer que seja o seu desfecho, o nacionalismo ucraniano sairá reforçado. No plano geopolítico, todas as conjeturas são neste momento possíveis.

Se os homens - todos - não soçobrarem diante da loucura, resolvendo autoextinguir-se, qual será a nova ordem mundial, depois do conflito? Lapalisse responderia: depende de quem ganhar a guerra. Como não tenho o dom da adivinhação e já que, como observador externo, não disponho de nenhuma cobertura jornalística isenta (redundância necessária nos tempos atuais, dominados pela mera propaganda de guerra), evitarei arriscar qualquer especulação a respeito.

Desde o primeiro momento, quando a Rússia resolveu, contra todos princípios e leis internacionais, invadir a Ucrânia, sempre ficou claro para mim que o que está em jogo é a manutenção e consolidação ou, então, a eventual reconfiguração da ordem mundial resultante da queda do Muro de Berlim. Essa ordem, reinante desde os anos 80 do século passado, na sequência do desmantelamento da antiga URSS, é ostensivamente uma ordem unilateral, cujo centro dominante são os EUA. A União Europeia não conta, pois, ao invés de se constituir num polo autónomo de poder global, preferiu ser um mero instrumento da principal potência mundial.

A crescente expansão da NATO para o leste da Europa, desrespeitando os compromissos alcançados com as últimas lideranças soviéticas, confirma que os EUA e os seus aliados estão apostados na consolidação do unilateralismo. No entanto, a emergência da China fez soar os alarmes em Washington. A acrescer a isso, a possibilidade de constituição de um eixo sino-russo foi vista, naturalmente, como uma ameaça existencial à ordem mundial unilateral vigente nas últimas quatro décadas, com o risco da sua substituição pelo multilateralismo. A intervenção dos EUA e da NATO nos assuntos internos da Ucrânia, desde 2014, insere-se na estratégia de acuar e enfraquecer a Rússia, impedindo a consolidação de uma eventual aliança estratégica entre ela e a China.

De facto, essa intervenção, em especial o aceno para a integração da Ucrânia na NATO, não tem outro nome senão provocação. Reitero, aqui, a minha condenação da invasão russa, que considero uma violação do direito internacional e um erro político, mas ninguém me peça para ignorar a referida provocação, na qual a Rússia caiu que nem um urso.

Seja como for, teremos de aguardar o desfecho da guerra da Ucrânia para saber qual das duas hipóteses irá concretizar-se: a expansão da atual ordem unilateral ou a criação de uma nova ordem, baseada no multilateralismo? Neste imbróglio, um papel decisivo parece reservado à China. Irá ela apoiar a Rússia, consolidando, pois, o eixo sino-russo determinante para a instauração do multilateralismo, ou deixá-la-á cair?

Como intelectual africano, entretanto, o que me preocupa mais é saber como os nossos países poderão posicionar-se neste jogo. A propósito, não me esqueço que um episódio essencial da implantação da atual ordem unilateral pós-Muro de Berlim foi a destruição da ex-Jugoslávia conduzida pelos EUA e a NATO. Isso enterrou definitivamente o antigo movimento dos não-alinhados, com o qual a maioria das nossas nações de identificava.

Não coincidentemente, sabe-se que, neste momento, estão a começar certas discussões nos círculos intelectuais africanos acerca da necessidade de um novo não-alinhamento, ajustado aos desafios da democratização, desenvolvimento e afirmação global do continente e que permita a este último posicionar-se de maneira independente no novo quadro geopolítico pós-Ucrânia, qualquer que ele seja. Um tema a acompanhar.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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