E, de repente, Rio até pode ganhar

É bastante evidente que a eleição que os apoiantes de Paulo Rangel, o mesmo é dizer os passistas, davam como garantida lhes parece agora um pouco tremida. O aparelho é o aparelho e convém não subestimar os sindicatos de voto, mas eles, embora mais pequenos, também existem do lado de Rui Rio. Joga-se tudo na capacidade de mobilização, que rima com motivação, e aí é que a porca torce o rabo para os lados do desafiante.

Quem está a pensar em Rio está mesmo a querer Rui Rio como candidato do PSD a primeiro-ministro, já do lado de Rangel há muito quem lhe apeteça votar Paulo Rangel apenas porque não quer Rio na liderança do PSD. A maioria dos chefes de claque que apoiam Rangel estão a pensar na lista de deputados, muitos nem acreditam que seja possível ganhar as eleições. A maioria dos militantes do PSD, pelo contrário, nem quer saber quem vem para Lisboa, levantar e sentar, aprovar ou rejeitar o que é da exclusiva competência da Assembleia da República, querem é saber se o seu partido vai voltar a governar Portugal.

Do lado de Rio também há chefes de claque a pensar na mesma lista, mas o que joga a favor dele é a repetida notícia de que o aparelho se passou em peso para Rangel. Isso só é possível com muita negociata, sabem os militantes do PSD, que podem assim ficar desconfiados com a motivação daquele apoio. O voto é individual e é secreto. Aquela coisa muito pouco democrática de recusar debater com Paulo Rangel e de prescindir de ir para o terreno, argumentando que tinha de fazer oposição ao governo de António Costa, acabou por funcionar. Rangel vai, aliás, precisar de responder mais diretamente a Rio (tem preferido as indiretas, pouco eficazes em campanha). Veremos que surpresas nos traz esta última semana de campanha.

Rangel entrou nesta corrida como vencedor antecipado e isso tornou bastante mais difícil o seu trabalho. Acresce que ele era visto como sendo muito melhor do que Rio para liderar a oposição e, de repente, houve uma crise com que ninguém contava e que veio dizer aos militantes do PSD que já não se tratava de liderar a oposição, mas de afirmar uma candidatura à chefia do governo. A campanha de Rangel não correu nada bem, forçado a produzir um soundbite diário que o trouxesse para o horário nobre das notícias, a única coisa que acabou por ficar foi que pretende ter uma maioria absoluta para governar. O problema é que, para evitar responder com total clareza à relação que terá com o PS, acaba por repetir um desejo que não tem nenhuma aderência à realidade. Para ganhar eleições é preciso gerar confiança. Rangel pode vir a ganhar o PSD, mas está muito longe de ganhar o país.

Rio, que partiu sem a mínima hipótese de ganhar, jogou com todas as armas que tinha, algumas delas impensáveis em democracia, como tentar saltar as eleições internas. Tudo o que fez parece ter tido o único objetivo de pôr os militantes do PSD a abandonar a ideia de eleger um líder da oposição e pensar antes em eleger um candidato a primeiro-ministro. Afinal de contas, se Rangel acredita que o PSD pode ter uma maioria absoluta daqui a dois meses é porque o partido não está assim tão mal. Maior elogio Rio não podia ter.

No dia 27, vai haver muitos militantes a apanhar boleia para ir votar, mas o que vão colocar nas urnas é secreto. Será que Rio tem hipóteses de ganhar?

Jornalista

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