É chegado o momento de reerguer a nossa sociedade

Publicado a: 
Atualizado a: 

Nada será como antes. A pandemia mudou o mundo como o conhecíamos e virou de avesso as nossas vidas. Este é um dos pensamentos que mais nos assola a todos, individualmente ou em comunidade, mais de um ano depois do início desta crise sanitária mundial.

O ser humano é resiliente por natureza e, com maior ou menor dificuldade, enfrenta os desafios que lhe são colocados. A sociedade, no seu todo, reorganizou-se e apoiou incondicionalmente os que, na linha da frente, deram o seu melhor na luta mais difícil das nossas vidas: a luta contra um inimigo sem rosto.

Como autarca do concelho mais densamente povoado do país, com cerca de 180 mil residentes em 24 km2, encontrei muitos desafios, mas também muitas oportunidades. Desde a primeira hora, todos os agentes locais foram inexcedíveis, num trabalho em rede já existente e que se consolidou ao longo deste último ano. No decorrer destes longos meses, a palavra resiliência ganhou uma nova dimensão e, sem dúvida, um significado mais profundo.

Se o início da vacinação foi um momento muito importante e de esperança para os nossos munícipes e para todos os portugueses, e que se espera seja um processo rápido e eficaz, é agora o momento de refletirmos nos tempos vindouros e nos desafios que deles advêm. É chegado o momento de reerguer a nossa sociedade e os nossos territórios.

Enquanto a comunidade científica e médica se debate a estudar as sequelas físicas da pandemia, também nós, enquanto gestores públicos, temos de refletir sobre o futuro dos nossos territórios. Como vão as cidades reorganizar-se para enfrentarem as consequências pós-covid-19? Como podemos ajudar a sarar as cicatrizes que uma pandemia desta natureza vai deixar? A crise económica pode criar uma crise social e ampliar as desigualdades para as gerações futuras. O desemprego, a pobreza, as desigualdades sociais e tantas outras situações de vulnerabilidade têm de ser acompanhadas num contexto de proximidade.

O país tem pela frente o maior pacote de medidas de estímulo de sempre, podendo aceder a um quadro de investimento europeu (Estratégia Portugal 2030 e o Next Generation EU), e é nossa responsabilidade a missão de "pensar" o território que gerimos no nosso dia a dia e reforçarmos e consolidarmos as políticas locais de apoio já existentes.

Tão importante como a obra física, que não pode e não deve ser descurada, os próximos anos têm de ter como especial enfoque as políticas de educação, de habitação e sociais. As autarquias, em conjunto com as instituições locais e o tecido empresarial, devem criar sinergias para que seja possível ajudar as pessoas a recuperarem e a desenvolverem as suas competências.

Em momentos difíceis como este que todos enfrentamos, o importante é termos a capacidade de perceber o que é mais relevante e complementar esforços para conseguir dar resposta às necessidades das pessoas.

Se ao longo desta pandemia têm sido investidos muitos milhões de euros para colmatar as necessidades mais prementes da população, as autarquias têm agora nas mãos o desafio de continuarem a investir em programas de apoio, fazendo chegar a ajuda necessária aos milhares de famílias que viram a sua qualidade de vida comprometida por este vírus.

É preciso criar condições atrativas para que as empresas possam gerar postos de trabalho, apostar na formação profissional para combater o desemprego, manter a excelência no sistema educativo, com o objetivo de melhor prepararmos uma futura geração, e quebrar o isolamento da população sénior, promovendo um envelhecimento mais ativo.

Mais do que recuperar o que se perdeu, urge uma mudança importante de paradigma: o grande desafio de quem gere os territórios de proximidade, tanto agora como no futuro próximo, é fazer tudo o que é necessário para não deixar ninguém para trás. Compete-nos a todos criar os alicerces para um futuro melhor, coeso e socialmente justo, porque o mais importante são sempre as pessoas.

Presidente da Câmara Municipal da Amadora

Diário de Notícias
www.dn.pt