E a China?

Poderá vir a ser a chave da solução para o conflito entre Rússia e Ucrânia. Falo do voto de abstenção da China na proposta de Resolução do Conselho de Segurança da ONU que pretendia condenar a invasão da Ucrânia. Na melhor tradição chinesa, a paciência foi o método, o que, no caso, significa para já afastar-se da Rússia, sem, contudo, a condenar. Não é ainda o tempo de a China levantar o dedo, mas vale a pena especular sobre os cenários possíveis.

À entrada na segunda semana de guerra, é inevitável constatar que a evolução da situação escapou por completo ao controlo de Putin. No terreno, o avanço rápido e triunfante até Kiev revelou-se uma miragem. Chegarão lá, estou certo, mas depois terão de enfrentar o horror do combate rua a rua. No entretanto, o ditador russo fez o pleno da asneirada. Uniu o mundo em torno da Ucrânia, fez renascer a NATO, retirou a Suíça e a Noruega da sua tradicional neutralidade, empurrou alguns dos seus vizinhos para os braços da UE, colocou importantes oligarcas contra a guerra e semeou a revolta entre o seu povo. Pior era impossível.
Perante este estado de coisas, a paciente China estará a ficar impaciente. A porta que deixou aberta, ao abster-se, tem de ter alguma utilidade. De que lado vai ficar?

Num primeiro cenário, a China daria a mão à Rússia, contra o ocidente. E, na passada, intensificaria a reivindicação de Taiwan, podendo ou não avançar para a invasão. Esta seria a visão de uma nova ordem internacional, em que ao bloco ocidental tradicionalmente liderado pelos Estados Unidos e acompanhado pela Europa se oporia a um bloco euroasiático, constituído por China e Rússia. Aparentemente, este novo espaço teria dimensão territorial e humana para criar mecanismos comerciais alternativos aos que estruturam hoje a globalização. A realidade, porém, é bem diferente, devido à fragilidade da economia russa. Não consigo antever um grande entusiasmo chinês por uma linha de desenvolvimento como esta. Um país com uma capacidade de produção incomensurável, que quer e precisa de vender, não quererá ter um parceiro estratégico pobre.

Num segundo cenário, perante o isolamento da Rússia, a China colocar-se-ia do lado dos mais fortes e daria a mão ao ocidente. Estaria, neste caso, a velar pelos seus interesses económicos no futuro e a afastar-se de um vizinho que tem tudo para vir a ser tóxico. Seguramente que, com a China a juntar-se ao coro internacional, a Rússia ajoelharia. Porém, esta posição diluiria o papel chinês enquanto potência internacional e seria contraproducente face ao caminho que o país tem trilhado. Não me parece provável.

Por fim, num terceiro cenário, a China não quebraria a neutralidade e chegar-se-ia à frente como pivot das negociações, levando à retirada russa. Só vejo vantagens. Primeiro, não exporia os seus próprios pecados, a começar pela reivindicação de Taiwan. Se a lição a retirar da invasão da Ucrânia é o risco de isolamento a que a Rússia foi votada, os chineses, bem menos impetuosos, não arriscarão um avanço sobre Taiwan, deixando as coisas como estão, isto é, no plano dos princípios. Em segundo lugar, o gigante asiático emergiria como um elemento estabilizador da ordem mundial, uma potência de soft power, que impediu uma quase terceira guerra mundial e fez regressar o mundo à racionalidade do multilateralismo. Recolheria, com certeza, a simpatia e os elogios de todos, sobretudo dos países ocidentais. Por fim, e em terceiro lugar, a China teria aplanado o terreno para a sua estratégia económica de longo prazo, aquela que, no fim dos tempos, lhe poderá dar a supremacia que acha que merece.


Professor catedrático

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