Doutrina Marilyn

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Em 2026 celebra-se o centenário do nascimento de Marilyn Monroe, a estrela da comédia Quanto Mais Quente Melhor e de tantos outros êxitos, mas é de outro Monroe, o James, quinto presidente dos Estados Unidos, que se fala desde as primeiras horas do ano por causa da doutrina que ele batizou em 1823. Segundo a Doutrina Monroe, a partir daquele ano o “novo mundo” deixava de estar sujeito às colonizações europeias. 

Mas, como Talos, o gigante de bronze indestrutível criado por Dédalo para proteger Creta que, de tantas mutações, se tornou uma máquina assassina que matava os piratas ameaçadores mas também os comerciantes honestos, a Doutrina Monroe, à conta de interpretações, re-interpretações, correções e adaptações também se transformou num monstro.

Em 1895, já Richard Olney, secretário de Estado do presidente Grover Cleveland, escrevia, a propósito de um conflito com o Reino Unido sobre – não se surpreenda – a Venezuela, que “os Estados Unidos são praticamente soberanos neste continente”, a chamada Interpretação Olney.

Mais ou menos por essa altura, James Blaine, o secretário de Estado do presidente James A. Garfield, formulava a Política Big Brother, que compelia as nações latino-americanas a abrirem os mercados a negociadores norte-americanos.

Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt acrescentava, no chamado Corolário Roosevelt, que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos dos demais países do continente “em caso de transgressões flagrantes contra a civilização”, outra vez, sem surpresa, a propósito de uma disputa com a Venezuela como cenário.

Já depois de intervenções militares em países como Cuba, Honduras, Panamá, Haiti, República Dominicana e Nicarágua, Reuben Clark, o secretário de Estado do presidente Calvin Coolidge, lançou em 1928 o Memorando Clark para justificar e legalizar essas operações.

E a partir da Guerra Fria, ganhou força o conceito da América Latina como “o Quintal da América”. O golpe que, no Chile, executou Salvador Allende e alçou o ditador Augusto Pinochet ao poder e a derrubada, no Brasil, de João Goulart para instituir uma ditadura militar, ambos com apoio da Casa Branca, foram exemplos desse conceito, que, por sua vez, era filho do Memorando Clark, descendente do Corolário Roosevelt, herdeiro da política Big Brother, oriundo da interpretação Olney mas já um parente muito afastado da Doutrina Monroe.

O texto original de Monroe, por exemplo, jamais admitiria o sequestro do autoritário Nicolás Maduro, fosse pela desculpa do combate às drogas, fosse pelo eterno interesse de Washington no petróleo da Venezuela.

Eterno ao ponto de, na comédia Quanto Mais Quente Melhor, de 1959, a personagem de Marilyn Monroe ter ficado de coração partido quando o seu par romântico, Tony Curtis, lhe comunicou que se ia casar com a filha de um magnata da… Venezuela. Sem dar parte fraca, ela ripostou logo que, graças a essa informação privilegiada, ia comprar já 50 mil ações de petróleo venezuelano.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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