Dollar Street

Se uma imagem vale mais do que 1000 palavras, vale seguramente 1000 vezes mais do que um número. Por isso a exibição gráfica, seja de imagens, vídeos ou aplicações na web, permite que informações numéricas, ou dados, passem do domínio do abstrato a algo com sentido muito concreto e tornam-se um poderoso instrumento de comunicação. E empatia. Chama-se a isto a visualização de dados (VD). E obviamente não estou a falar de representação de dados em gráficos, mas de imagens que imediatamente entendemos e assimilamos.

Vem isto a propósito do fascinante projeto "Dollar Street", desenvolvido pela fundação sueca Gapminder desde há 15 anos, e que nos permite visitar milhares de lares e famílias em todo o mundo, sem sair de casa, reportando o seu rendimento mensal e ilustrando como o mesmo permite viver.

Assim, vemos como na China a família Liang vive com 133dl/mês e a família Bi com 10 098dl; a família Koleta, no Togo,com 670dl; os Chowdury, na Índia, com 30 dl; os Peters, nos Países Baixos, com 1 038 dl; em França, os Chamaitte com 803 dl e o casal Larrièrre com 14 753, etc. etc. Podemos visualizar as casas, e nelas o chão; tetos; paredes, mas também a iluminação; as sanitas; o abastecimento de água; as camas; as escovas de dentes (e os dentes); os brinquedos; os acessórios de cozinha. Os curtos vídeos e as centenas de fotografias que se desdobram perante os nossos olhos, desdobram-nos o mundo em intimidades, mesmo quando a mesma família pouca intimidade tem (porque dormem todos no mesmo chão, na mesma única assoalhada, a única com cobertura).

Duas coisas me marcam, nesta viagem sem sair de casa. A primeira, é que se uma família dorme toda no chão, ou na mesma cama, ou no mesmo "quarto", tal não se deve a questões de cultura ou civilização. Tal deve-se à pobreza. Basta comparar famílias pobres em África ou na Ásia e famílias remediadas nestes continentes, em qualquer país. A segunda, é que mesmo a pobreza de 803dl em França, por comparação com o nível de vida neste país, é incomparavelmente mais rica do que a pobreza dos Wang nos seus 240dl na China. Vejam-se os sapatos; o guarda-roupa; o sabonete; a toilette; os utensílios de cozinha; os dentes. E os sonhos.

Ou seja: na nossa Europa ocidental, a fome já não bate à porta dos europeus (a não ser aquela escondida, envergonhada). Isto porque o nosso sistema social, os apoios que fomos construindo ao longo destes muito anos de prosperidade e paz, permitiu-nos retirar da pobreza faminta milhões de pessoas. No resto do mundo não é nada assim. A luta pela sobrevivência faz-se ainda de luta por ter o que comer e dar o que comer - e de beber! - à família. É certo, terrivelmente certo, que na Europa ocidental outros dramas (só para referir dois, a pobreza energética e o acesso a cuidados de saúde) nos batem à porta, mas não a fome. Como imaginá-la?

Tal como Hans Rosiling, pai da fundação que criou este projeto dizia, "os números nunca revelarão a história completa daquilo que é a vida na Terra". Ele, eminente médico, investigador, promotor do uso de dados para explorar questões de desenvolvimento, estabelecendo ligações entre o desenvolvimento económico, agricultura, pobreza e saúde, adepto da imagem que dá corpo e cor aos números.

Vice-presidente executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal

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