Do frio na barriga ao ataque de pânico: entender a ansiedade face aos exames

Publicado a

A época de exames universitários volta a colocar milhares de estudantes sob uma pressão intensa, muitas vezes silenciosa, mas profundamente real. Para muitos, este é o período mais exigente do ano académico: multiplicam se as avaliações, acumulam se trabalhos, apertam se prazos e cresce a sensação de que tudo depende destas semanas. A ansiedade surge, inevitavelmente, como companheira de estudo. Mas nem sempre é compreendida, nem sempre é falada, e muito menos é tratada com a seriedade que merece. Importa, por isso, distinguir aquilo que é uma resposta natural do organismo perante um desafio daquilo que se transforma num peso insuportável, capaz de comprometer o bem estar e o desempenho.

A ansiedade, em doses moderadas, é positiva e funcional. É o alerta interno que nos diz que algo é importante, que exige foco e preparação. É semelhante ao chamado stress positivo: aquele frio na barriga que mobiliza, que nos ajuda a organizar prioridades, que nos mantém atentos. Este tipo de ansiedade não é um inimigo; é um aliado. O problema surge quando a ansiedade deixa de ser reguladora e passa a ser paralisante. Quando o estudante já não consegue dormir, comer ou concentrar se. Quando os pensamentos se tornam profundamente negativos ou mesmo catastróficos – “vou chumbar”, “não sou capaz”, “não devia estar aqui” – e o corpo responde com sintomas persistentes, como taquicardia, tensão muscular, dores de cabeça ou uma sensação constante de ameaça. Aqui, já não falamos de stress positivo, mas de stress tóxico: uma resposta intensa e prolongada, sem mecanismos de regulação suficientes, que coloca o organismo em modo de sobrevivência. E ninguém estuda, aprende ou realiza exames de forma saudável quando vive permanentemente neste estado.

Em muitos casos, este ciclo culmina em ataques de pânico, que são episódios súbitos e assustadores que podem surgir durante o estudo, na véspera de um exame ou até durante o mesmo. A falta de ar, o coração acelerado, as tonturas, a sensação de desmaio ou de perda de controlo são vividas como sinais de fraqueza, quando na verdade são manifestações claras de sobrecarga emocional. O estudante sente que falhou, quando o que falhou foi o sistema de apoio que deveria ajudá lo a reconhecer e gerir estes sinais antes de chegarem a este ponto.

A verdade é que a ansiedade académica não nasce no vazio. Alimenta se do perfeccionismo, da autoexigência (ou da exigência parental) desmedida, da comparação constante com colegas, da falta de rotinas equilibradas, da privação de sono e até do consumo excessivo de estimulantes. Alimenta se também de uma cultura universitária que, muitas vezes, normaliza o sofrimento como parte do percurso, como se estudar até à exaustão fosse prova de mérito. Não é. É sinal de risco.

É fundamental reforçar que existem estratégias saudáveis para lidar com a ansiedade: rotinas de estudo realistas, com pausas regulares, descanso adequado, técnicas de respiração, redução de estímulos, alimentação equilibrada e exercício físico. Mas tão importante quanto isto é normalizar o pedido de ajuda. Procurar apoio psicológico não é um último recurso; é um gesto de responsabilidade consigo próprio. E há sinais que não devem ser ignorados: ansiedade persistente que não diminui mesmo após os exames, ataques de pânico recorrentes, insónia prolongada, isolamento social, perda de interesse nas atividades habituais ou a sensação constante de estar “no limite”. Estes sinais merecem atenção especializada.

A ansiedade não é um defeito de carácter, nem um indicador de incapacidade. É um pedido de atenção do corpo e da mente. A universidade deve ser um espaço de aprendizagem, não de sofrimento silencioso.

Falar sobre saúde mental é uma forma de prevenir, apoiar e humanizar o percurso académico. E esta responsabilidade é partilhada: dos estudantes, das famílias, das instituições e da sociedade. Porque ninguém deveria enfrentar sozinho aquilo que é, afinal, uma experiência profundamente humana.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
www.dn.pt