Discrepâncias entre o voto presidencial e o estadual

A sondagem de intenções de voto publicada na noite desta quinta-feira (em hora de Brasília, já de madrugada em Lisboa) pela Datafolha, além de assinalar hipótese de Lula vencer na primeira volta, mostra novamente que o eleitorado de um Estado pode eleger um presidente de esquerda e um governador estadual de direita. Ou mais exatamente, optar por Lula para presidente e por um bolsonarista para governador.

A região Sudeste é um bom exemplo pois tem 43% do eleitorado de país, compreendendo os três estados mais industrializados - São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais - aos quais se acrescenta o pequeno Espírito Santo.

Em São Paulo, segundo esta sondagem, Lula arrebataria 41% dos votos enquanto o seu candidato ao governo estadual, Fernando Haddad - que o substituiu nas presidenciais anteriores - estaria com 34%. No campo bolsonarista, mesmo fenómeno, pois enquanto o atual presidente é creditado com 34% das intenções o seu candidato paulista fica pelos 23%. Aqui o fiel da balança pode ser o candidato situado na terceira posição, apoiado pelo PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, também na quinta-feira, publicou uma carta apelando ao voto anti-Bolsonaro sem declarar apoio a ninguém.

Em Minas Gerais, as diferenças são ainda mais acentuadas. Lula aparece em primeiro nas preferências dos eleitores para presidente com 46%, mas o atual governador, Romeu Zema, ligado a Bolsonaro durante todo o seu mandato, pode ser reeleito na primeira volta, na medida em que 48% dos entrevistados pela Datafolha declararam ser-lhe favorável. Zema não é candidato pelo Partido Liberal, bolsonarista, mas permanece muito próximo do atual presidente e a maior parte dos bolsonaristas mineiros preferem-no em vez do mal conhecido candidato do PL.

No Rio de Janeiro, o panorama é diferente apenas num ponto. A nível das presidenciais há empate técnico entre Lula e Bolsonaro - 40% e 38% respetivamente. Porém, na eleição estadual o bolsonarista Claudio Castro, atual governador, recolhe 36% das intenções de voto contra 26% de Marcelo Freixo, apoiado pela aliança formada em torno do ex-presidente.

Em nenhum caso os votos nos presidenciáveis corresponde aos declarados para governadores. É um dado capital, mais evidente ainda nas eleições para as casas do Legislativo, relativizando a anunciada bipolarização da vida política brasileira. Na verdade, isso só ocorre em torno da Presidência, porque no conjunto da estrutura política o perfil é o inverso: fragmentação com uns 30 partidos podendo alcançar algum nível de representatividade. E quem for eleito presidente vai ter de contar com eles para governar, já que ninguém fará maioria absoluta no Congresso.

Nos últimos dias acentuou-se a campanha do PT para eleição de Lula na primeira volta e, se isso ocorrer, poderemos ter segundas voltas só para governadores. É o apelo ao voto útil, oportunidade também para correrias de última hora em apoio ao provável vencedor. A campanha visa captar eleitores sobretudo da candidatura de Ciro Gomes, seriam 7 % e, se possível, de Simone Tebet, com 5%. Uma soma de 12% que faz diferença e nenhum dos dois pensa em desistir, apresentando-se mesmo como alternativas democráticas.

Os resultados desta campanha serão influenciados por dois debates televisivos marcados para os próximos dias, sem se saber ainda se os dois candidatos de topo vão comparecer.

Pesquisador no NEA/INEST/UFF (Rio de Janeiro) e no CEI/ ISCTE/IUL (Lisboa)

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