Diplomacia multivetorial fórmula de sucesso cazaque há 35 anos

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No final de 2026, passarão 35 anos sobre o fim da União Soviética, um dos eventos geopolíticos mais significativos da segunda metade do século XX. Em vez de um país, são agora 15, com a vasta e populosa Rússia a assumir-se, sem surpresa, como a herdeira do principal símbolo de estatuto da extinta superpotência comunista, o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Surpreendente, sim, e a merecer ser analisado, tem sido o percurso daquela que era a segunda maior república soviética em área: o Cazaquistão, hesitante no processo que levou à desagregação do gigante euroasiático, mas que assim que declarou a independência, definiu uma ambição: a construção de um Estado cazaque forte, capaz de assegurar a soberania sobre a extensa estepe, um território que é o nono maior do mundo. A mudança da capital de Almaty para a mais central Astana foi uma das importantes decisões nesse sentido.

Nursultan Nazarbayev, que transitou do anterior regime, teve um papel decisivo como primeiro presidente durante quase três décadas, gerindo equilíbrios com vizinhos poderosos como a Rússia e a China, ao mesmo tempo que consolidava a nação cazaque. Ao seu sucessor desde 2019, o diplomata Kassim Jomart-Tokayev, cabe agora a missão de garantir o sucesso do Cazaquistão como potência média, capaz de usar a sua geografia (e riquezas) no coração da Ásia Central como vantagem para desenvolver o país e, em simultâneo, reforçar a rede de parcerias pelo mundo fora que lhe traz a sua diplomacia multivetorial.

Se os vizinhos Rússia (pela História e pela minoria eslava que vive no Cazaquistão) e China (sobretudo pelas oportunidades de cooperação económica) são incontornáveis, quem governa em Astana sempre estendeu a política de alianças à Europa e aos Estados Unidos, e estes últimos, em especial, deram provas bem recentes do valor que dão à centralidade geopolítica cazaque. Tokayev assinou há dias a Carta do Conselho da Paz criado por Donald Trump, isto depois de no ano passado ter sido recebido na Casa Branca e convidado a incluir o Cazaquistão nos Acordos de Abraão e, entretanto, ter recebido convite do presidente americano para participar na próxima Cimeira do G20, que se realizará em Miami em dezembro.

À medida que se aproximam os 35 anos da independência cazaque, que tem sido uma época sem guerras ao contrário do que acontece noutras ex-repúblicas soviéticas, cresce a tentação de fazer balanços. E o próprio Tokayev, embora pedindo ambição aos concidadãos para se conseguir mais, destacou os 6,5% de crescimento económico em 2025 numa recente reunião do Kurultai, órgão consultivo de diálogo entre a classe politica e a sociedade civil, reunido na cidade de Kyzylorda. 

O presidente cazaque realçou que o PIB ultrapassou os 300 mil milhões de dólares e o rendimento médio por habitante os 15 mil dólares. Riquíssimo em fontes de energia, do gás natural ao petróleo, passando pelo urânio e o carvão, o país procura também rentabilizar a passagem pelo seu território dos corredores da iniciativa chinesa Uma Faixa, Uma Rota. Além disso, nova legislação adotada visa incentivar as empresas cazaques, e as empresas estrangeiras que atuam no Cazaquistão, a uma nova dinâmica. A aposta na digitalização e na Inteligência Artificial é para fazer, e sem perda de tempo, explicou o presidente. Numa entrevista de início do ano ao jornal Turkistan, Tokayev tinha já enfatizado a importância da digitalização e do desenvolvimento da Inteligência Artificial, comentando até que nesse campo, decisivo, americanos e chineses estão já em franca competição para serem líderes.  “O Cazaquistão deve tornar-se uma potência digital; trata-se de uma questão de sobrevivência coletiva, enquanto país civilizado, numa nova era tecnológica.”

Sabendo as fragilidades iniciais do Cazaquistão quando ganhou a independência, como ser um país encravado, ter uma economia planificada virada para o mercado soviético ou ser a única república em que a etnia que lhe dava o nome não era claramente maioritária, os resultados alcançados são notáveis. Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU divulgado em 2025, é um dos 74 países de desenvolvimento muito elevado, ocupando a 60.ª posição entre quase 200 Estados, só atrás, no espaço ex-soviético, dos três países bálticos, que são hoje membros da União Europeia, e da Geórgia, candidata. Surge mesmo à frente da Rússia, prejudicada pelo impacto da guerra que iniciou com a Ucrânia em 2022. 

Acreditando numa via de sucessivas reformas que prepararam os 20 a 21 milhões de cazaques para os desafios do século XXI, o presidente também anunciou um próximo referendo para tornar unicamaral o Parlamento e criar o cargo de vice-presidente, mais um passo nas políticas lançadas depois dos graves motins de janeiro de 2022. É um caminho ainda com muito por fazer, este, da aproximação entre governantes e governados. E percebe-se que Tokayev, não falando de saída de cena, nem de sucessores, quer deixar como legado um país mais moderno do que aquele que recebeu, pois modernidade não é apenas a arquitetura futurista em Astana.

Habituado a conversar com os principais líderes mundiais, e a ser provavelmente o único chefe de Estado que pode falar com Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping na língua de cada um destes, o poliglota Tokayev expressou, tanto no discurso em Kyzylorda, como na entrevista ao Turkistan, a preocupação com o cenário internacional, e a importância de não falhar nas decisões.

A crescente boa relação com Trump não pode, por exemplo, ter como resultado uma degradação da relação com Putin ou mesmo com Xi. Não é esse o conceito de diplomacia multivetorial. Aliás, na entrevista ao Turkistan, quando falou das terras raras como mais uma área de potencial riqueza para o Cazaquistão, fica bem claro o desejo de diversificação de parceiros, ao dizer que o país está a desenvolver “cooperação com os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Coreia do Sul, o Japão e vários países da União Europeia”.

É muito interessante que ao novo cargo de vice-presidente venham a ser atribuídas, entre outras tarefas, a representação do Cazaquistão em fóruns e negociações internacionais com delegações de estados estrangeiros. Tem sido o protagonismo internacional, desde logo a renúncia ao arsenal nuclear soviético, uma das bases da afirmação do Cazaquistão, país de língua e cultura turquícas de maioria muçulmana, mas Estado secular, no cenário global. 

Um país que acredita no multilateralismo (Tokayev foi subsecretário-geral da ONU), e se assume como construtor de pontes, é também um óbvio parceiro de Portugal, que partilha idêntica visão da diplomacia, apesar dos 6000kms em linha reta que separam a Lisboa atlântica dessa moderna Astana rainha das estepes. 

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