Desigualdade é o risco global mais transversal

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A desigualdade já não é apenas um tema social ou de justiça distributiva. No contexto atual funciona sobretudo como um risco sistémico, torna-se um fator que afeta a estabilidade económica, a coesão política, a confiança institucional e, em última análise, a capacidade de decisão de organizações e Estados. O último Global Risks Report do World Economic Forum posiciona, de forma consistente, a desigualdade e a polarização social entre os riscos mais relevantes que moldam o horizonte dos próximos anos. Não como fenómenos isolados, mas como variáveis profundamente interligadas com outros riscos económicos, geopolíticos e institucionais.

Nos mapas de risco do WEF, a desigualdade surge como uma das ameaças mais interconectadas. Isto significa que a sua evolução influencia, e é influenciada, por múltiplas dimensões críticas, desde a crise económica e a instabilidade social até à fragmentação geopolítica e à fragilização das instituições democráticas. Esta interconectividade transforma a desigualdade num verdadeiro multiplicador de risco. O aumento das disparidades económicas tende a exacerbar a polarização social, o que fragiliza a confiança nas instituições públicas e privadas, eleva a probabilidade de conflitos e dificulta a cooperação política e económica, tanto a nível nacional, como internacional.

Vários relatórios internacionais chamam a atenção para indicadores estruturais. A OCDE utiliza a expressão “broken social elevator” para descrever a degradação da mobilidade socioeconómica nas economias avançadas. Em muitos países, a mobilidade intergeracional estagnou, ou deteriorou-se, e a posição socioeconómica dos pais continua a ser um forte determinante da trajetória dos filhos. Este bloqueio da mobilidade não é apenas um problema social. Traduz-se em mercados de trabalho menos dinâmicos, menor eficiência na alocação de talento e maior fragilidade económica no médio e longo prazo.

A OCDE e o Fundo Monetário Internacional convergem num ponto essencial: níveis elevados de desigualdade estão associados a crescimento económico mais fraco, ciclos de expansão menos duradouros e maior instabilidade política. A concentração de rendimento limita o investimento em capital humano, reduz o consumo agregado e aumenta a volatilidade macroeconómica. Estes padrões revelam uma fragilidade estrutural que afeta diretamente o ambiente competitivo das empresas e a previsibilidade necessária à decisão estratégica.

Para organizações económicas, a desigualdade traduz-se em riscos concretos. A erosão das classes médias tende a limitar o consumo e a estabilidade económica. As disparidades persistentes no acesso à educação, saúde e oportunidades aumentam a volatilidade do mercado de trabalho e geram lacunas críticas de competências. A expectativa de progresso coletivo esbate-se.

Num mundo em que os riscos são cada vez mais interligados e não lineares, a desigualdade não pode ser tratada como um problema isolado. Tê-la em conta não é

apenas uma questão de responsabilidade social, é uma questão de gestão de risco estratégico.

Contudo, as empresas, só por si, não “resolvem” a desigualdade. Podem apenas contribuir para a sua mitigação e gerir a sua exposição aos efeitos da desigualdade. Isso implica, antes de mais, reconhecê-la como uma variável de risco que deve ser integrada nas análises de contexto, nas decisões de investimento, nas cadeias de valor como fator que afeta previsibilidade e estabilidade e, numa outra perspetiva, maximiza a utilidade social.

Implica também encarar o investimento em capital humano. O investimento insuficiente em competências é um dos principais canais através dos quais a desigualdade afeta o crescimento económico. Decisões relacionadas com requalificação contínua, progressão baseada em competências e mobilidade interna tornam-se, assim, instrumentos centrais de mitigação de risco ao mesmo tempo que criam oportunidades.

Do mesmo modo, a gestão de assimetrias internas deixa de ser uma questão reputacional e passa a ser uma questão de governação. Estruturas salariais legíveis, critérios claros de progressão e mitigação de assimetrias extremas dentro das organizações contribuem para reduzir vulnerabilidades operacionais e sociais, num contexto externo mais tenso.

O mesmo se aplica às grandes transições em curso - climática, digital e tecnológica - e o próprio World Economic Forum é bastante explícito, ao indicar que transições percebidas como injustas tornam-se politicamente instáveis e, por isso, economicamente arriscadas. Antecipar impactos sociais, proteger cadeias de valor críticas e evitar modelos que dependam da exclusão rápida de segmentos inteiros da força de trabalho não é um gesto ideológico, mas uma condição para a viabilidade das transições.

Para as empresas, a desigualdade não é um problema a resolver, mas uma condição estrutural a gerir. Ignorá-la equivale a assumir que o contexto permanecerá estável, um pressuposto cada vez menos compatível com a realidade económica, política e social. Abordá-la de forma estratégica não é um ato de prudência. Muitas empresas assumem uma ambição maior e organizam-se para maximizar a utilidade social. E isso já é uma opção estratégica.

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