Desejo sexual, conforto e ciúmes: um difícil equilíbrio histórico e evolutivo

Há umas semanas estive em Portugal, e como costume quando estou em Portugal pediram-me para falar da evolução do... sexo. Foi precisamente o tema que falei no excelente TEDXOPorto 2022, e também em várias entrevistas, incluindo para o programa "Sociedade Civil" da RTP2. Frequentemente, mas nem sempre, os jornalistas que me entrevistam acham que eu vou defender que a monogamia, ou casamento monogâmico é algo "errado", ou obsoleto. Mas, como veremos em baixo, isto não é nada o que eu digo, como resultado dos dados empíricos que compilei para os meus últimos livros sobre este tema. Ou seja, por um lado sim, mostro, com dados empíricos científicos, que em relação à evolução humana, é um pouco "contra-natura". Os primatas são quase todos poligâmicos, e os seres mais próximos de nós, os chimpanzés, têm um modelo polimacho-polifêmea, em que tanto os machos como as fêmeas têm vários parceiros sexuais (geralmente do sexo oposto, mas não sempre, pois a homossexualidade está presente em quase todas as espécies de mamíferos, e os bonobos - uma das duas espécies de chimpanzés - participam frequentemente em relações homossexuais). Similarmente, os povos caçadores recoletores que existiram antes da agricultura em todo o globo, e os que existem hoje em várias regiões do planeta, em geral também são poligâmicos, ou ao menos não tem uma imposição cultural tão forte da monogamia, a qual é em grande parte uma construção social que apareceu sobretudo depois da agricultura.

A agricultura trouxe sobretudo a imposição da monogamia à mulher, feita pelos homens, devido a duas mudanças significativas que trouxe: o conceito de propriedade privada e, relacionado com isso, a maior subjugação da mulher. Nos povos caçadores recoletores há geralmente menos desigualdade de todos os tipos, incluindo de género. Não porque sejam "nobres selvagens", mas simplesmente porque é a maneira mais eficiente para pequenos povos nómadas de subsistir no seu meio ambiente. Com a agricultura, e as religiões organizadas que apareceram depois dela, como o Judaísmo, Cristianismo, Budismo, Confucionismo, reforçou-se bastante a subjugação da mulher (um exemplo próximo de nós sendo o de Eva e da história do pecado original). Com o conceito de propriedade privada, em que casas, vacas, cereais, etc, eram vistos como "nossos", e que nós podemos "dar" aos nossos filhos, os homens quiseram então assegurar que eram os filhos deles, e não de outros homens, a receber essa "herança". Daí a imposição da monogamia à mulher, não ao homem: nos primeiros textos bíblicos os patriarcas tinham muitas mulheres, por exemplo. A imposição social da monogamia aos homens é muito posterior na história, e só acontece nalgumas religiões, como o cristianismo (ao contrário do que acontece, por exemplo, em muitos países onde o Islão é predominante).

Isto leva-nos a um tema central para entender o amor, sexo e casamento: a diferença entre o que é "natural", ou seja, o que realmente queremos ou desejamos, e o que é "cultural", ou seja, o que a sociedade nos impõe ou como quer, ou espera, que nos comportemos. Natureza e cultura/sociedade não estão totalmente separadas, é óbvio, pois somos naturalmente animais sociais, mas em geral sim, pode falar-se de um confronto, de uma certa maneira, entre o que se quer/deseja fazer como indivíduo, versus o que se pode/deve fazer em sociedade. Este tema tem muito a ver com a segunda parte do que digo nas minhas palestras: que embora o casamento monogâmico seja sobretudo uma imposição cultural, isso não quer dizer que esteja "errado". Primeiro, porque não há "errado" ou "certo" na natureza, isto são apenas construções sociais humanas. O vírus da covid ao infetar humanos não está a fazer nada "errado", ou os tremores de terra não estão a fazer nada "errado" quando matam seres humanos: é simplesmente assim a natureza. Em segundo lugar, na natureza não há soluções perfeitas, mas sim trade-offs, em que algo que construímos como "bom" geralmente está combinado com algo que construímos como "menos bom" ou "mau". Por exemplo, ao diminuir a mortalidade infantil, também contribuímos para a superpopulação do planeta, que pode levar a um colapso ecológico deste.

Nesse sentido, o casamento monogâmico traz-nos dois dos três itens que estão em permanente conflito, naturalmente, no que tem a ver com amor e sexualidade humanas: o desejo sexual, o conforto e os ciúmes. Temos naturalmente desejo sexual por muitos parceiros porque não somos naturalmente monogâmicos e o desejo sexual é no fundo um desejo pela novidade, há um número enorme de estudos antropológicos e biológicos que mostram isso. Por isso, mesmo parceiros casados tentam manter a "novidade" para promover o desejo sexual, seja mudando as rotinas, ou vestindo certo tipo de roupa interior, vendo filmes pornográficos juntos, etc. No fundo é a maneira precisamente de tentar minimizar o item, dos três que referi acima, de que se abdica mais no casamento monogâmico: o desejo sexual. Quais são então os dois itens que se "ganham" com isso? Um é a diminuição dos ciúmes. Naturalmente somos poligâmicos, temos desejo sexual por muitos, mas também temos ciúmes naturalmente, que vêm da noção de território tão frequentemente presente noutros primatas. Ou seja, idealmente queremos ter muitos parceiros, mas que cada um seja só nosso. No fundo, foi isso que aconteceu quando se teve um poder supremo, como imperadores supremos que tinham haréns com centenas de mulheres em que cada uma delas era apenas dele, ou ainda hoje com narrativas machistas religiosas, como fazem alguns muçulmanos ou mórmons ao terem várias esposas em que cada uma delas é apenas de um homem. O segundo item que se ganha no casamento monogâmico é o conforto/familiaridade: se tivermos um cancro aos 70 anos, queremos estar com alguém que esteja connosco no hospital porque quer estar connosco, não porque quer apenas ter sexo connosco.

Isso leva-nos então, para acabar, a dois tipos de sexualidade que estão a ser cada vez mais praticados no ocidente. Um deles, a poligamia sexual (ter vários parceiros sexuais) que não envolve necessariamente amor, é no fundo de alguma maneira parecido ao que passa com os chimpanzés: uma mulher tendo sexo com muitos homens, um homem tendo sexo com muitas mulheres - o modelo polimacho-polifêmea. Tal como o casamento monogâmico, tem duas vantagens, mas estas são diferentes: privilegia o desejo sexual, pois envolve muitos parceiros, e diminui os ciúmes, pois não se tem um envolvimento amoroso por eles. O outro item, o conforto/familiaridade, é então o que é mais afetado por este tipo de sexualidade.

Finalmente, a poliamoria é de alguma maneira baseada no reconhecimento que ter desejo por muitos parceiros é natural, mas mistura isso com o que é de alguma maneira ainda uma concessão às narrativas religiosas e filosóficas - por exemplo de Platão - em que o sexo sem amor é visto como algo menos nobre: eu tenho sexo com muitos/muitas, mas sinto amor por todos eles/elas. Desta maneira, a poliamoria privilegia o desejo sexual (por muitos parceiros) e o conforto/familiaridade (pois em teoria há amor envolvido), os quais contrabalançam o facto de os ciúmes poderem estar presentes, precisamente pois há em teoria amor pelos parceiros/parceiras, os quais têm outros parceiros/parceiras.

Em resumo, não há soluções perfeitas, cada um destes tipos de relações privilegia dois dos três itens, sendo o "problema" o outro item, ou seja, se bem que o casamento monogâmico esteja em queda nos países ocidentais, também não é certo que a poligamia sem amor, ou a poliamoria, se vão consolidar de maneira permanente.

Antropólogo e biólogo, Howard University, USA

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