Desconfiança e desinteresse

Estou cansado de denunciar o que está a acontecer, mas sinto-me bastante sozinho, ou estou errado, ou os poucos que denunciam parece que são anti-democratas, mas não é assim.

Os partidos políticos são uma coisa muito pequena no universo de uma sociedade, se só se conta com os partidos o resultado conhece-se de antemão, está à vista a realidade que vivemos.

É preciso ampliar a democracia e mobilizar os cidadãos.

Os partidos são indispensáveis em democracia porque são o canal que temos para apresentarmo-nos a eleições, qualquer projecto que se tenha sem os partidos é difícil executá-lo.

O que é necessário é mobilizar os cidadãos e que tomem as rédeas do país. Actualmente, há uma brecha enorme entre a cidadania e a política, algo está a ser mal feito.

Quando nos esquecemos que a política se faz em contacto com a sociedade e não noutros locais em constantes lutas pelo poder. Como diz Baltazar Garzón ,"há uma burocratização do poder e do sistema democrático". Estamos a pagar as consequências do esquecimento do contacto com os cidadãos e um distanciamento em que há forças que aproveitaram.

O sistema democrático revela-se incapaz de combater a corrupção, degenerando na impunidade de políticos, banqueiros e empresários. Quebra-se a confiança e isso é grave. Os cidadãos não confiam ao verem tanta falta de castigo ou punição. O sistema não está a funcionar.

Na sociedade portuguesa há muita insensibilidade nestas questões pela teoria do facto consumado:há uma investigação, um processo, mas já se sabe que vai dar em nada. A maioria dos portugueses têm a percepção que a justiça não é eficaz.

Nesse caso é imprescindível uma reconciliação. Não podemos continuar a fingir que podemos continuar a tomar decisões sem saber o que as pessoas pensam delas, sem envolvê-las. A política atravessa uma série crise de confiança, os cidadãos deixaram de acreditar em parte, na sua utilidade. É necessário fazer ver que a política é necessária, mas existe para resolver os problemas concretos das pessoas e que muitos problemas só se resolvem mudando o contexto em que fazemos as coisas. De acordo com um estudo European Trust Brands divulgado pela revista Reader´s Digest, realizado há uns anos, só 1% declara ter muita ou bastante confiança nos políticos. Os portugueses em quem mais confiam por ordem decrescente são nos bombeiros (

93%) , pilotos de aviação (92%), farmacêuticos ( 90%) , médicos ( 84%) , agricultores ( 79%) , professores ( 78%) , policias ( 63%) , meteorologistas ( 59%) e sacerdotes ( 49%) . No fim do top 20 estão os vendedores de automóveis ( 9%) e políticos ( 1%). Recentemente, a situação não se alterou muito, na décima oitava edição do estudo conduzido pela revista Reader"s Digest, os banqueiros conseguiram, pela primeira vez, igualar os políticos no fundo da tabela, tendo recolhido apenas 7% de confiança. O estudo revela ainda que a maioria não confia nos juízes. Os sinais sentem-se na sociedade portuguesa, talvez se os políticos fizessem um exame de consciência e tirassem as devidas ilações da sua conduta. Uma das cicatrizes da nossa democracia é a tentação de utilizar a rede do poder para engendrar clientelas fiéis em função de um intercâmbio de voto.

A culpa é sempre dos outros. A classe política com os seus comportamentos e atitudes tem levado ao divórcio entre os cidadãos e os políticos. E a melhor forma de incutir confiança e respeito é "o exemplo do nosso poder tem que ser igualado pelo poder do nosso exemplo", as instituições públicas estarem ao serviço das pessoas e não aos interesses e objectivos particulares e partidários. Há muita gente que já perdeu a fé nos políticos e no país. Estão fartos de sorrisos brancos, fatos escuros, interesses obscuros, demagogia, broncas e insultos.

O último exemplo é a intervenção infeliz do presidente da Assembleia da República Augusto Santos Silva, à cerca do que proferiu André Ventura. Quem tem que contrapor André Ventura é o líder parlamentar do PS, Brilhante Dias.

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