A viagem de Nuno Melo, esta semana, à Polónia e à Turquia - marcada pela cerimónia que grava simbolicamente Camões no novo navio da Marinha- é um ponto de partida útil para voltar a refletir sobre o lugar de Portugal no atual contexto europeu de Segurança e Defesa e sobre as escolhas estratégicas que o país enfrenta num momento de investimento militar sem precedentes em democracia.O regresso dos navios reabastecedores e a aposta em plataformas como o KC-390 representam ganhos operacionais relevantes. Num cenário internacional moldado pela guerra na Ucrânia, pelo reforço do flanco Leste da NATO e pela crescente instabilidade geopolítica, Portugal tem razões para modernizar as suas capacidades militares e reforçar a sua credibilidade como aliado. A defesa coletiva passou a ser uma exigência concreta de prontidão, interoperabilidade e compromisso político.Mas o verdadeiro impacto deste ciclo de investimento será medido para lá do plano militar. O Governo prepara-se para mobilizar cerca de 5,8 mil milhões de euros ao abrigo do instrumento europeu SAFE, um dos maiores pacotes de financiamento em Defesa alguma vez associados a Portugal. Trata-se de um esforço excecional, apoiado em empréstimos europeus de longo prazo e condições financeiras favoráveis, mas que exige padrões igualmente excecionais de transparência, escrutínio público e responsabilidade política.O próprio ministro da Defesa reconheceu essa exigência ao anunciar a criação de uma comissão independente para acompanhar a execução dos investimentos, com a missão de supervisionar contratos, calendários, custos, contrapartidas industriais e resultados operacionais. Essa promessa deve traduzir-se em mecanismos claros, autonomia efetiva e capacidade real de fiscalização. Num setor sensível e historicamente exposto à opacidade, a transparência é uma condição essencial de confiança democrática.Ao mesmo tempo, o sucesso desta estratégia dependerá das opções tomadas na seleção dos programas, fornecedores e parcerias, os quais, até agora, apenas foram parcialmente revelados. Para que o esforço em Defesa seja compreendido e aceite pela sociedade, é fundamental que produza retorno económico, industrial e tecnológico para o país. Caso contrário, será difícil sustentar no debate público a prioridade atribuída a estes investimentos, sobretudo num contexto em que persistem necessidades relevantes em áreas como a Saúde, a Educação, a habitação, já para não falar no próprio investimento na segurança interna (nas condições para os polícias, equipamentos e novas tecnologias).A questão não é opor Defesa ao Estado Social, mas garantir que o investimento militar não se limita à aquisição de equipamento e contribui também para dinamizar a economia nacional, criar emprego qualificado, reforçar a indústria e estimular a inovação tecnológica. Sem esse impacto visível, o consenso público em torno do esforço de Defesa será frágil.O exemplo do KC-390 aponta um caminho possível. Portugal não se limitou a adquirir uma aeronave: participou na sua certificação NATO, integrou engenharia da Força Aérea Portuguesa, envolve produção industrial em território nacional e obtém retorno financeiro por cada unidade vendida a países parceiros. Trata-se de um caso em que capacidade operacional, interesse económico nacional e projeção internacional convergem, reforçando simultaneamente soberania, indústria e credibilidade externa.Esse princípio deve orientar o conjunto das decisões associadas ao SAFE. Devem ser privilegiados projetos que reforcem a Base Tecnológica e Industrial de Defesa portuguesa, integrem empresas nacionais nas cadeias de fornecimento europeias e permitam a Portugal assumir um papel de parceiro e não apenas de cliente na nova realidade de Defesa europeia.A deslocação de Nuno Melo simboliza uma ambição legítima: reforçar capacidades militares, consolidar alianças, atrair investimento e posicionar Portugal. O desafio está em transformar essa ambição em resultados mensuráveis, assegurando boa governação, critérios claros de decisão, impacto económico nacional e transparência efetiva.Investir em Defesa pode ser necessário para a proteção coletiva e para a credibilidade internacional do país. Para merecer apoio público sustentado, terá de ser também um investimento explicável, escrutinável e útil à economia nacional, sem perder de vista as restantes prioridades do Estado e a necessidade de preservar a confiança dos cidadãos. Diretora-adjunta do Diário de Notícias