Declaração russa

A recente declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia de que Israel deveria parar incondicionalmente os ataques à Síria é um sinal muito óbvio de que as coisas se estão a tornar mais claras do que nunca. A guerra na Ucrânia é um ponto de divisão mesmo para a situação no Médio Oriente e vai ser muito difícil para países como Israel jogar em mais de um lado.

A Rússia e Israel tinham um entendimento de que todos os ataques à Síria deveriam ser coordenados entre si, direcionados a alvos não russos, o que inclui a posição e infraestruturas do exército sírio, milícias iranianas e bases do Hezbollah. Funcionou bem até agora, mas há sinais claros de que esse acordo está prestes a ser rompido pelos russos.

Se acompanharmos o que está a acontecer com a posição internacional da Rússia e o que está a acontecer com a expansão da NATO, devemos esperar algumas respostas russas, em qualquer sítio do mundo. A Síria é um lugar muito adequado e fácil para esse tipo de resposta, onde os russos têm as suas bases militares, muito boas relações com o governo do presidente Bashar al-Assad e equipamentos que poderiam ser usados, se necessário, para impedir qualquer ataque estrangeiro a esse país. Já não é importante se esta decisão ajudaria as organizações radicais islâmicas ou o regime iraniano. É importante que os aliados dos EUA e da NATO sejam confrontados com as possibilidades militares russas e o perigo de alargar o conflito da Ucrânia para outras regiões do mundo.

A questão em aberto é até onde os russos estão preparados para ir? Construir um antigo Médio Oriente dividido, decididamente não é possível, porque há mais de dois intervenientes na região e os países da região estão muito mais capazes do que nunca. Assim, a Rússia não poderia abastecer os seus aliados do passado, mas pode sempre criar incidentes, tendo em vista a sua presença militar na Síria e na Líbia, por exemplo.

Israel, por sua vez, está a reivindicar o sucesso do governo de Naftali Bennett em continuar a construir novas casas para colonos na Cisjordânia, persuadir os EUA a manter a guarda revolucionária iraniana na lista das organizações terroristas, o que está a impedir a conclusão do acordo nuclear com aquele país, que se opõe a Jerusalém. Desse ponto de vista, uma maior influência de Israel na política externa dos EUA no Médio Oriente significa menos espaço para acordos com os russos, único resultado lógico dessa política.

Ao que parece, tudo depende da situação na guerra russo-ucraniana. As sanções ocidentais contra a Rússia estão a abrir novas possibilidades para alguns países, incluindo Israel, no fornecimento de gás natural à Europa e na substituição da Rússia. É um problema económico muito sério para Moscovo e ninguém deve esperar que eles fiquem parados e esperem serem derrotados economicamente de uma forma catastrófica.

A estabilidade no Médio Oriente tem sempre dois lados. Um é muito positivo, porque dá possibilidades aos países da região de começarem a pensar em prosperidade e cooperação no interesse de todos. Mas, por outro lado, também dá aos antigos inimigos espaço para se prepararem para a próxima ronda de conflitos diretos ou indiretos, que estão em fogo lento em algum lugar da região, à espera de serem usados para um confronto mais violento.

Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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