A festa da democracia", no dizer de João Adelino Maltez, anda, por estes dias, à solta "nas televisões". Os debates entre os líderes dos partidos com assento parlamentar ainda vão a meio, a campanha só começa oficialmente daqui a uma semana e já tivemos a primeira volta dos combates, perdão, debates eleitorais..Num modelo de frente-a-frente com 25 minutos - pouco tempo, na minha opinião - não há grande espaço para apresentação de medidas e para a sua explicação, para a discussão de propostas entre os líderes, para que fiquem bem claros os diferentes caminhos que cada um propõe..Não se consegue ir além de três, na melhor das hipóteses, quatro temas, que são aflorados mas não debatidos, apresentados mas não sustentados, ditos mas não explicados..O resto, já se sabe, é a forma e as características de cada uma ou de cada um dos líderes..Cada qual tenta derrotar o adversário que tem diante de si, muitas vezes através de pequenos truques de comunicação ou de sound bites previamente estudados, frases-chave com efeito nos espectadores ou uma "estocada" à matador quando se apanha o outro mal preparado ou numa contradição..Ainda assim, mais valem estes debates do que nenhum. E, sim, trata-se da festa da democracia, no sentido em que quem quer acompanhar os debates tem hoje, mais do que há uma semana, uma ideia mais clara de cada um dos líderes, do que representam e do que dizem querer para o país. Apesar, repito, da escassez de tempo, da falta de sustentação das propostas e dos truques de comunicação trazidos de casa..À exceção de dois líderes, que por forma e feitio, necessidade e estilo, passam o tempo aos gritos, na generalidade, o tom tem sido cordial e civilizado. A televisão não perdoa e quando os contendores se atropelam, falam ao mesmo tempo ou se interrompem constantemente a mensagem deixa de passar e a forma sobrepõe-se ao conteúdo. Temos tido muitos debates e alguns combates. Mas quando são verdadeiros debates, firmes mas serenos, com discussão de projetos e não de casos, com propostas concretas rebatidas por outras propostas concretas, mesmo que de sentido oposto, ganha a democracia e ganhamos nós, os eleitores..No dia 30, ao escolhermos um novo parlamento, estaremos a transferir, outra vez, a nossa soberania para os eleitos, que nos vão representar até à próxima eleição..Essa transferência da soberania popular do todo para alguns que escolheremos de entre nos é o ato cívico, político e democrático mais importante. Quando somos chamados a escolher..Por isso, o desafio é para os que se disponibilizam a receber essa soberania: debatam, de verdade, em vez de combaterem; expliquem, em vez de enunciarem; mostrem diferenças, em vez de se atacarem..E, a julgar pelas audiências, no dia 30 teremos uma eleição mais esclarecida..Jornalista