De pé, ó vítimas da fome!

O que a malta quer é pão e circo. Enquanto um em cada três faz dieta, há dois que ainda morrem de fome. Assim vai o mundo, nosso, onde o único fator que verdadeiramente escasseia entre a fartura é um pouco de humanidade.

No momento em que convergem para Davos (Suíça) mais de 2500 ricos e poderosos deste mundo, a organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) alerta para a maior escalada de preços dos bens alimentares de que há registos. Depois de um agravamento médio de 20%, provocado pela crise sanitária dos últimos anos, a tendência é agora de maior carestia, uma alta que vem para durar, causada não só pela interrupção do fornecimento de cereais da Ucrânia, mas também pelo impacto que o preço do petróleo tem na produção agrícola mundial, da qual é altamente dependente. O que aí está é uma ameaça brutal à segurança alimentar nos países em desenvolvimento e emergentes. Estimativas das Nações Unidas apontam que até 1.700 milhões de pessoas serão afetadas pelos diferentes canais de transmissão da crise gerada pela invasão russa, das quais 1.200 milhões, em 69 países, serão mais duramente atingidas. A tormenta anunciada é tanto mais grave quanto já se sabe que as crises de segurança alimentar são geralmente acompanhadas de instabilidade política e pelo risco de novos conflitos internos ou internacionais.

Uma qualquer resposta frouxa a tal desafio comporta um enorme risco geopolítico: no caminho de uma crise que empobrece grande parte da população mundial, o apelo aos princípios democráticos, sem atender ao interesse imediato dos mais pobres, é seguramente um fraco argumento para garantir a cumplicidade dos países emergentes e em desenvolvimento. Ou, como dizia um certo avô, "fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia". Ora, se a União Europeia quiser manter algum peso na cena internacional diante de um bloco não-liberal cada vez mais consolidado, terá que intensificar o apoio às populações mais vulneráveis , enquanto ela própria - portugueses incluídos - procura reagir aos efeitos mais nefastos que a guerra na Ucrânia está a gerar nas nossas economias. Segundo a FAO, o índice de preços de alimentos básicos registou uma subida de 20 pontos desde o começo da guerra (24 de fevereiro) e de 30 pontos em relação ao mesmo mês do ano anterior. Ora, cada ponto de aumento nos preços, de acordo com estimativas do Banco Mundial, equivale a mais 10 milhões de pessoas atiradas para a extrema pobreza.

A dependência de pelo menos 35 países africanos dos cereais russos e ucranianos está a estrangular a capacidade de alimentar as suas populações devido ao declínio das exportações de trigo, milho, cevada e sementes de girassol. A Rússia também controla, juntamente com sua aliada Bielorrússia, o mercado de fertilizantes, enquanto a continuação do conflito ameaça as próximas colheitas num país em guerra. A crise alimentar pode não ter feito parte dos planos de Putin, mas seu efeito está a ser devastador em muitos lugares do planeta, com dezenas de milhões de pessoas a sofrer os efeitos colaterais de uma guerra de conquista somada a condições climáticas que agravaram a situação, com colheitas bastante reduzidas na Ásia, devido a inundações, e partes da África submetidas à pior seca em décadas.

Garantir o fornecimento de cereais e alimentos básicos aos países ameaçados pela fome é, pois, uma emergência humanitária. Pelo que qualquer possível e desejável tratado de paz e reparação para a Ucrânia deve levar em conta, por parte da comunidade internacional, a emergência alimentar de países que terão sofrido as consequências de uma guerra que não escolheram. A sobrevivência de milhões de pessoas nos países mais pobres depende dessa consciência e da rapidez das respostas do mundo desenvolvido.


Jornalista

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