De França para o mundo

A primeira volta das eleições presidenciais em França confirmou um novo duelo entre Macron e Le Pen. Um moderado, de convicções europeístas, contra a porta-voz do nacionalismo da extrema-direita. Um dos dois será presidente.

Macron, que em 2017 ganhou com quase o dobro dos votos, depois de um debate televisivo onde ficou evidente a fragilidade da demagogia de Le Pen, enfrenta, desta vez, sondagens que indiciam um desfecho muito mais incerto.

Não há sinal mais claro da falta de resposta às necessidades e frustrações dos franceses do que o facto de quase metade dos eleitores estarem dispostos a entregar o futuro do seu país ao extremismo de Marine Le Pen.

A abertura à mudança radical já se manifestou no domingo passado, onde o voto antissistema e protecionista teve maioria nas urnas. Em conjunto, Mélenchon, Zemmour e Le Pen ultrapassaram os 52%.

Zemmour e Le Pen culpam refugiados e migrantes pelos problemas do seu país. Rejeitam a abertura cultural e social, o cosmopolitismo. Mélenchon é diferente, não acompanha a narrativa xenófoba, mas defende, por exemplo, que a França abandone a NATO e até algumas vertentes da União Europeia. Na noite eleitoral, pediu a todos os franceses que "não votem em Le Pen". Faltou apelar ao voto em Macron.

Somos mais que meros observadores; o rumo da França tem impacto na Europa e no mundo. Imagine-se a resposta à guerra na Ucrânia com uma presidente Le Pen, com conhecidas ligações a Putin e beneficiária de financiamento russo para as suas campanhas. Ou como o seu nacionalismo poderia ter bloqueado a solidariedade europeia face à pandemia.

Em larga medida, este voto em políticos radicais advém da desigualdade persistente, agravada pela globalização e digitalização. Macron enfrentou o protesto dos coletes amarelos e daí saiu fragilizado. Esse foi já um movimento contra as desigualdades, mesmo se a pretexto da oposição a uma medida fiscal.

Gráficos deslumbrantes do PIB pouco significam quando os benefícios da prosperidade são repartidos de forma desigual, favorecendo sobretudo os milionários e grandes multinacionais, penalizando pequenas empresas e, sobretudo, os trabalhadores. Desregulação, ganhos extraordinários e sofisticados esquemas de evasão fiscal. É difícil imaginar terreno mais fértil para a proliferação do sentimento antissistema.

Como resposta a esta realidade, o movimento moderado, reformista e defensor de serviços públicos fortes e redistribuição de rendimentos tem crescido na Europa em torno do centro-esquerda, em sucessivas eleições. Mas, em França, Macron polariza ainda este voto por mais uma eleição.

A segunda volta das eleições francesas é uma vez mais a luta decisiva entre dignidade e ódio. Macron tem de vencer, em nome dos valores humanistas que partilhamos. Mas tem depois de entregar resultados concretos para as classes médias trabalhadoras, desencantadas, e que tanto têm votado nos radicalismos. Este não é apenas um desafio de França, mas das sociedades ocidentais, que se alimentou do desencanto provocado pela resposta errada e egoísta à crise financeira de há uma década.

Se falharmos na construção de uma sociedade mais inclusiva, onde o sucesso se mede pelo bem-estar de todos os cidadãos e onde os benefícios da globalização e digitalização sejam partilhados, o resultado será o crescimento dos Zemmour, Le Pen, Salvini, Ventura e afins.


Eurodeputado

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Mónica Quintela

A deputada do PSD defendeu que o governo de Passos Coelho deveria ter aproveitado a crise para dar uma lição aos funcionários públicos, deixando-os sem salários durante dois meses. Surpreendeu a frieza, o despeito pelos funcionários públicos. E também surpreenderam os aplausos da sua bancada parlamentar.

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