Da proteção à excessiva proteção

Qual a diferença entre proteger e proteger excessivamente uma criança? Onde acabam os cuidados de proteção e começa a castração da sua liberdade e necessidade de explorar o mundo? Como proteger uma criança sem a confinar numa redoma de vidro?

As férias de verão chegaram e é hora de libertar as crianças, deixá-las correr e cair, subir às árvores e esfolar os joelhos, jogar à bola e raspar no chão, comer (alguma) areia e sujarem-se de cima a baixo. Mais do que nunca, e pensando nos últimos dois anos tão cheios de restrições, é hora de as deixar explorar o mundo à sua volta, estimulando a curiosidade, o juízo crítico e a aprendizagem informal.

O problema é que, para muitos pais e cuidadores, esta exploração do mundo envolvente é vista como perigosa. É como se o perigo espreitasse a cada esquina e em cada parque infantil, transmitindo à criança a ideia de que o mundo é perigoso.

Crescer com a crença de que o mundo é perigoso gera ansiedade e hipervigilância. Afinal de contas, tenho de estar de olhos bem abertos e antecipar todos esses perigos! Potencia crianças inibidas e desconfiadas, dependentes das figuras de referência, pouco autónomas e com medo de arriscar e enfrentar o desconhecido.

As férias de verão chegaram e é hora de libertar as crianças, deixá-las correr e cair, subir às árvores e esfolar os joelhos, jogar à bola e raspar no chão, comer (alguma) areia e sujarem-se de cima a baixo.

Proteger a criança implica reconhecer todas as suas necessidades e satisfazê-las de uma forma adequada à sua idade e maturidade. E, ao mesmo tempo, com esta base segura que são as suas figuras cuidadoras, permitir que se afaste e explore o ambiente que a rodeia. Só assim teremos crianças (futuros jovens e adultos) confiantes e seguras, capazes de gerir a novidade e de resolver os problemas com que se deparam.

Sabemos que o mundo de hoje tem desafios que, no "nosso tempo", eram diferentes. No nosso tempo, brincávamos livremente na rua, voltávamos para casa quando ouvíamos o nosso nome num grito estridente e fazíamos grandes percursos a pé, sem qualquer tipo de supervisão. Não se falava em raptos, pedofilia e afins. Uma geração depois e passámos para o extremo oposto - controlamos cada passo dos nossos filhos. Carregam localizadores no bolso, uma simples queda é uma catástrofe e ficamos mais tranquilos quando os vemos sentados e quietos agarrados aos écrans...

Penso que é importante encontrar um ponto de equilíbrio. Proteger, sim, informando e criando canais de comunicação com as crianças. E, em simultâneo, dar espaço e liberdade para que se aventurem e descubram por si mesmas aquilo que as envolve. E deixá-las cair, errar, bater com a cabeça se preciso for. Ou não é com os erros que todos aprendemos?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG