Da importância da Turquia voltar a reeleger Erdogan

Publicado a
Atualizado a

A Turquia terá eleições gerais, legislativas e presidenciais no próximo dia 14, tendo estas últimas sondagens que colocam o actual presidente-candidato (PC) Recep Tayyip Erdogan taco-a-taco com o principal adversário, Kemal Kilicdaroglu, o "KK" que conseguiu desde há dois anos federar transversalmente toda a oposição, tornando-se num farol de esperança de uma maioria de descontentes. As projecções dão 47,5% das intenções de voto a KK e 44,4% ao PC. "Desimagine-se", como diz uma prima minha, que isto serão "favas contadas", já que a eleição presidencial tem duas voltas e uma coisa são sondagens e desejos, e outra a hora da verdade "no escurinho do cinema", de caneta em riste e boletim de voto à frente.

Pois é muito importante que este mês os turcos joguem pelo seguro. Porquê? Começando pela questão interna, mais de duas décadas com o Partido de Erdogan no poder, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, à boa maneira islamista, minaram a administração pública de tal forma, que perderem agora o poder, seria mergulhar o país num processo de substituições que rapidamente atingiria o patamar dos saneamentos compulsivos, por via das resistências dos vencidos, habituados aos "dez a zero" com que foram esmagando os adversários ao longo deste século. Antidemocráticas resistências, mas compreensíveis do ponto de vista humana. No final deste processo e mesmo que o mesmo não se venha a verificar (podemos sempre imaginar uma transição pacífica), os substituídos perdedores passarão a fazer o papel da "pedra no sapato", da "areia na engrenagem" com capacidade para bloquear e boicotar qualquer tipo de acção do novo Governo, do novo presidente, tal é o grau de infiltração e domínio da vasta Administração Pública de um país com cerca de 85 milhões de habitantes. A Turquia perderia a pujança actual e o Estado perderia o controlo de si mesmo, na definição de um novo azimute nacional.

Quanto à questão externa, a Turquia é neste momento o "peão-cardeal" mais importante para a NATO-Ocidente nos tabuleiros Ucrânia e Médio Oriente. É fundamental manter Erdogan na Presidência da Turquia, para se manter um "gigante mediador" entre os "gigantes mundiais", na questão ucraniana. Este "gigante", já agora, próximo do "gigante Putin", é o responsável último pela viabilidade de uma "Crimeia útil", já que controla os estreitos do Bósforo e dos Dardanelos e com estes bloqueados o Mar Negro transformar-se-á em "Mar Morto" para os russos, já que não lhes permitirá saída para o Mediterrâneo. Ou seja, o estratega e avisado Erdogan, sabe que o pior seria encostar Putin a um canto, a um mar sem saída, pois o desespero do mesmo torná-lo-ia ainda mais imprevisível. Só uma vitória nas próximas eleições permitirá manter um "Erdogan útil" para a Europa e para o Médio Oriente também, já que os sucessos turcos no combate ao terrorismo islamista são prova da competência dos serviços e dos militares que recebem instruções em linha reta do Gabinete Presidencial.

As razões da necessidade de um Erdogan vencedor estão elencadas, contínuo desbloqueio e fluidez da vasta Administração Pública turca, manutenção do actual presidente enquanto interlocutor de Putin junto da NATO e veículo de estabilização regional a Oriente, através da luta contra as ambições da "Internacional Terrorista Islamista". Creio que chega para votar nele.

Um ponto intermédio e sábio ao qual os turcos poderão chegar é reeleger Erdogan e enfraquecerem o AK Party no Parlamento. Muito provavelmente no discurso de vitória Erdogan até poderá parafrasear o nosso Mário Soares, quando em 1986 disse que "o Povo foi sábio e decidiu não colocar todos os ovos no mesmo cesto"!

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt