Convém ter em conta as diferentes fases da evolução da política externa americana: da “Doutrina Monroe” ao “Revisionismo Trumpista”, passando pelo “Expansionismo”, o “Wilsionismo” e o “Meliorismo”.Dá-se como adquirido que os EUA sempre foram isolacionistas, mas tal não corresponde à realidade, antes se constatando, isso sim, uma certa tendência para o unilateralismo, conforme foi lembrado por diversos autores como, por exemplo, Clay, Polk, Olney e, mais recentemente, Walter MacDougall.A Doutrina Monroe, desenvolvida por James Monroe (1823), assentava em três princípios, a saber: a) a não-criação de colónias nas Américas (o que estava ligado ao princípio da auto-determinação); b) a não-intervenção nos assuntos internos de países americanos por parte de países terceiros (pensando-se nas potências colonizadoras europeias); c) a não-intervenção dos EUA em conflitos relacionados com países europeus.À fase Monroe seguiu-se uma fase “expansionista”, conforme, aliás, veio a resultar do Tratado de Paris (1898), a que se seguiu a intervenção americana em Cuba, Porto Rico, Nicarágua, Ilha de Guam e Filipinas (territórios que vieram a ser administrados pelos americanos).Mais tarde, surgiu a fase “Wilsoniana”, que assentava nos 14 princípios enunciados por Woodrow Wilson, com destaque para os “pactos abertos de paz”, a “livre navegação absoluta” e a “remoção das barreiras económicas”, fase essa que correspondeu ao American New Testament, incorporando o que se designou por “Progressive Imperialism” ou “Liberal Internationalism”.A fase de New Testament iniciou-se com o Progressive Imperialism, sendo que os EUA, em princípios do século XX, ultrapassaram os 70 milhões de habitantes e sendo de salientar que, entre 1870 e 1910, chegaram 20 milhões de imigrantes aos EUA.De qualquer forma, Wilson iniciou uma nova Era, mais orientada para o Internacionalismo Liberal, tendo influenciado a prazo a construção de um novo Sistema que perdurou até finais do século XX, princípios do século XXI.Muitos “revisionistas” em relação ao Wilsonianismo chegaram a questionar as responsabilidades dos alemães na II GGM.E se é verdade que os americanos demoraram tempo a compreender os verdadeiros contornos da ameaça hitleriana, também é verdade que não foram lestos a compreender a dimensão da ameaça da URSS.Em 1943, os EUA fizeram concessões aos russos na Mongólia, na Polónia, concederam 18 milhões de US dólares de financiamento e aceitaram o direito de veto no Conselho de Segurança das NU.Mas, já em Março de 1946, quando Churchill falava na “Cortina de Ferro”, 60% dos americanos consideravam a política externa americana soft em relação à URSS.Truman e os seus sucessores tenderam a pôr em prática uma estratégia de “Contenção”, entrando-se no que se convencionou designar por “Era da Guerra Fria”.Eisenhower e Nixon prosseguiram a política de “contenção”, emergindo Kissinger como exímio negociador, assentando a sua credibilidade no facto de apresentar propostas na vizinhança do “ponto de negociação de equilíbrio”, colocando-se nos antípodas dos “vendedores de tapetes de Rabat” especuladores que pediam 100 para fechar por 50.John Kennedy e Jimmy Carter são líderes de transição para o Global Meliorism - i.e. a doutrina que faz depender o sucesso da democratização do sucesso do desenvolvimento -, enquanto Reagan adoptou uma estratégia dúplice, ora ameaçando com a “bomba dos neutrões“, ora dialogando com Gorbatchev.O Global Meliorism, teve sucesso, por exemplo, no Japão e na Coreia do Sul, mas não foi bem-sucedido no Vietname.Constatou-se que nem sempre o desenvolvimento económico e social era condição suficiente do desenvolvimento da democracia.Com Obama, surgiu o Realistic Meliorism, numa altura em que se considerava como cenário mais favorável a nível internacional a evolução para um sistema multipolar, com dominância de um paradigma ocidental.Trump foi eleito para romper com a Ordem Liberal, que o mesmo é dizer com o Wilsonianismo e o Meliorism.Baseou-se no descontentamento das vítimas da globalização e na constatação da existência de desequilíbrios externos, pretendendo desestruturar todo o sistema económico e financeiro construído na sequência da II GGM, defendendo o regresso a modalidades de proteccionismo, apostando em condicionar a China e em pôr em causa o projecto integracionista europeu.Não considera a Europa um parceiro privilegiado e entende que deve tratar a um nível diferente as lideranças das grandes potências totalitárias (Putin e Xi Jinping).Em síntese, a nova política “trumpista” assume-se como favorável a uma política proteccionista, visando um crescimento económico endógeno, na base da expansão do investimento público (à custa do agravamento do défice orçamental) e do investimento privado, este último incentivado pela redução significativa dos impostos e pela redução dos custos de regulamentação.A convergência anti-UE de Trump e Putin poderá contribuir para uma Nova Ordem Internacional anti-globalização, anti-democratização e anti-reforço das instituições supra-nacionais, conduzindo a um regresso aos anos 30 do século passado.Neste contexto conturbado, importa procurar compreender a Humanidade, como diria Fernando Pessoa, sabendo-se que o modo de encarar a vida varia de país para país, de região para região.Como diria o poeta, “a Humanidade é a mesma em toda a parte”. “Mas, sucede que em toda a parte é diferente”.Nem mais, nem menos… Economista e professor universitárioEscreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico