Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes. Pois implica silenciar tantos horrores!.(Bertolt Brecht, Aos que virão depois de nós ).Quando escrevo, há um remorso ou uma injunção que me assombra: como falar de outra coisa que não a guerra na Ucrânia? Como esquecer todo o sofrimento e morte desencadeados contra uma terra e contra um povo, como não pensar no maior abalo que o equilíbrio internacional sofreu desde a Segunda Guerra Mundial? Será "um delito", como dizia o poema de Brecht, falar hoje de coisas inocentes?.A solidariedade com o povo agredido da Ucrânia é quase consensual na nossa opinião pública. Mas isso não impede alguns de questionarem para onde está a ser levada esta natural solidariedade..O jornalista americano Robert D. Kaplan afirmou recentemente que o nosso apoio à Ucrânia é o apoio ao direito dos povos a disporem de si próprios e a solidariedade devida na luta contra o agressor, mas não um capítulo da luta das democracias contra as autocracias. A autocracia russa, de extrema direita nacionalista e imperial, não é a única autocracia do mundo e a maioria dos outros autocratas escolheram nesta guerra uma posição de prudente neutralidade e distância. A Ucrânia deve ser defendida e apoiada, sim, pela agressão de que foi vítima, mas o modelo político ucraniano, com todo o respeito pelo seu povo e pelo seu Estado, não é exatamente o nosso..A posição infeliz do PCP sobre esta guerra, que merece sem dúvida ser criticada e refutada, tem servido de motivo para a nossa direita procurar excluir o PCP do campo dos partidos constitucionais e democráticos de Portugal, acantonando-o como uma espécie de pestífero do regime..Ora o senhor ucraniano, que, em nome de todos os refugiados de guerra, manifestou a sua incompreensão pela existência entre nós do PCP, tem sem dúvida direito a exprimir o seu pensamento. Mas nós temos idêntico direito de rejeitar a utilização oportunista de um martírio real para influir e condicionar a nossa vida política. Não é negar aos ucranianos, que são um povo amigo, do qual um bom número vive e trabalha ao nosso lado há muitos anos, o direito à sua livre manifestação política. É negar a entidades oficiais ou oficiosas ucranianas o direito de se arrogarem como únicos intérpretes autênticos de um povo e de uma comunidade e quererem vir ditar regras à nossa democracia..E em homenagem ao povo ucraniano e por não querer falar mais dos que o utilizam e manipulam, termino com uma tentativa de tradução (a partir de uma outra tradução) das palavras do poeta ucraniano Serhiy Zhadan (nascido em 1974 em Lugansk):.Traz apenas o que é mais importante. Traz as cartas. Traz apenas o que puderes carregar. Traz os ícones e os bordados, traz a prata, traz o crucifixo de madeira e as réplicas douradas..Traz um pouco de pão, os legumes do jardim, e depois vai-te embora. Nunca mais voltaremos. Nunca mais veremos a nossa cidade. Traz as cartas, todas elas, até à última notícia ruim..Nunca mais veremos a nossa loja de esquina. Nunca mais beberemos daquele poço seco. Nunca mais veremos os rostos familiares. Somos refugiados. Vamos correr a noite toda..Passaremos por campos de girassóis. Vamos fugir dos cães, descansar com as vacas. Vamos apanhar água com nossas próprias mãos, e sentarmo-nos à espera nos campos, irritando os dragões da guerra..Tu não vais voltar e os amigos nunca mais voltarão. Não haverá cozinhas esfumaçadas, nem empregos habituais, não haverá luzes sonhadoras em cidades sonolentas, nem vales verdes, nem desertos suburbanos..O sol será uma mancha na janela de um comboio barato, passando a correr por poços de cólera cobertos de cal. Haverá sangue nos teus calcanhares, guardas cansados em terras fronteiriças cobertas de neve,.um carteiro com sacos vazios abatidos, um padre com um sorriso infeliz pendurado sob as costelas, o silêncio de um cemitério, o barulho de um posto de comando, e listas não editadas dos mortos,.tanto tempo que não haverá tempo para conferir os seus próprios nomes..Diplomata e escritor