Cuba não merece solidariedade?

Vi na semana passada muitas pessoas que se apresentam publicamente como de direita a chisparem farpas contra o governo cubano pela repressão de manifestantes do passado dia 11 de julho.

Estes comentadores engajados cumprem a sua missão ideológica, que inclui a eliminação de qualquer resquício, mesmo remoto, da possibilidade de uma sociedade com projeto socialista neste mundo.

Como dizem claramente ao que vão, respeito-os, oiço-os e leio-os com atenção para tirar as minhas conclusões sobre a razoabilidade, ou falta dela, na argumentação apresentada - mesmo se me sentir indignado com o que dizem, não me sinto enganado, e isso é saudável.

Vi, ainda, vários jornalistas/comentadores que se apresentam como "apartidários" a usarem retórica ideológica, descaradamente facciosa, para se colocarem na primeira fila da fotografia dos que combatem, dizem, a "ditadura comunista" da ilha.

Como estas almas me tentam enganar há anos com a sua suposta e impossível "isenção", baseada num fluxo informativo manipulado, que não controlam, não criticam e que reproduzem mecanicamente, não acompanho normalmente as suas intervenções. São uma perda de tempo.

Vi, também, várias pessoas que se apresentam publicamente como sendo de esquerda e se apressaram, antes mesmo de perceber minimamente o que se estava a passar em Cuba, a condenar o "regime cubano" por violação de direitos humanos.

Estas pessoas de "esquerda" já tinham condenado Lula da Silva por suposta corrupção, e hoje em dia veem essa acusação estar manifestamente fragilizada. A tese de uma conspiração que utilizou a justiça e os media para o derrubar ganhou, entretanto, evidente credibilidade.

Estas pessoas de "esquerda" já tinham alinhado com a acusação de uma suposta fraude eleitoral, que removeu Evo Morales da presidência da República da Bolívia e colocou no poder, via golpe de Estado "em nome da defesa da democracia", uma direita que resvalava para o fascismo à antiga.

A luta do povo boliviano conseguiu impor novas eleições e percebeu-se, pela derrota dos golpistas, que, afinal, a fraude era deles.

Estas pessoas de "esquerda" até alinharam com o golpe de Estado de Juan Guaidó na Venezuela, um óbvio tonto reacionário a soldo estrangeiro, que acabou por prolongar o poder do politicamente fraco Nicolás Maduro.

Estas pessoas de "esquerda" calaram-se durante um mês quando, no Peru, o vencedor das eleições, Pedro Castillo, esteve em risco de não poder tomar posse como presidente do país, apesar de ter ganho as eleições, por a direita, mais uma vez, ter tentado usar a arma da falsa fraude eleitoral e ter mesmo ameaçado com um golpe de Estado.

Estas pessoas de "esquerda" fecham os olhos ao evidente envolvimento, direto ou indireto, dos Estados Unidos da América em todas estas situações de luta pelo poder na América Latina, mesmo quando as respeitáveis imprensas americanas ou europeias as noticiam.

Estas pessoas de "esquerda" são as que me incomodam mais, que sou militante do PCP.

São pessoas do meu campo ideológico que, sistematicamente, passam a vida a defender uma sociedade conceptualizada pelo campo ideológico que dizem combater em vez da nova sociedade que teorizam dever acontecer. Se não se traem a si próprias (não estou dentro da suas cabeças, pelo que não sei) traem quem os lê - eu, pelo menos, sinto isso.

... E quantos deles, há 20 anos, adoravam Fidel Castro e Che Guevara?...

Ah! E o que é que eu penso sobre Cuba? Penso que todos os governos devem permitir manifestações de protesto. Penso que o governo cubano tem de ouvir essas pessoas. Penso que os cubanos devem resolver os seus problemas sem interferências estrangeiras. Penso que o bloqueio económico dos Estados Unidos é criminoso e decisivo.

Constato que não vi nenhum polícia de choque, de armadura, capacete e escudo. Constato que não vi canhões de água. Constato que não vi cargas de pelotões militarizados sobre a multidão. Não vi tiros de bolas de borracha. Vi um exercício de repressão com um nível muito inferior ao habitualmente usado na maioria das supostas democracias - até em Portugal, até nos Estados Unidos da América, até na União Europeia.

E depois há esta coisa simples, que me parece que qualquer pessoa de esquerda, defensora da autonomia e autodeterminação dos povos, deveria defender: enquanto os Estados Unidos quiserem dominar Cuba, é muito difícil Cuba não merecer solidariedade.

Jornalista

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