Cuba livre

Cuba está outra vez, como acontece desde que os revolucionários comandados por Fidel derrotaram a ditadura capitalista de Fulgêncio Baptista, no centro do furacão. Todo o mundo fala das manifestações que eclodiram na ilha há pouco mais de uma semana. Mas nem todos têm legitimidade para falar delas.

Como o tema, além de natural e justamente politizado, se tornou partidarizado desde o primeiro momento, começo por dizer que a extrema-direita mundial e os seus filhotes espalhados por vários países não têm legitimidade para falar de Cuba. Por isso, fizeram bem os líderes cubanos quando, literalmente, mandaram o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, dar uma volta.

A direita liberal, obviamente, tem toda a legitimidade para comentar, de acordo com a sua perspetiva, a situação cubana. Mas a análise não pode deixar de assinalar algumas incongruências na crítica feita por ela aos acontecimentos em Cuba.

Desde logo, o silêncio perante factos idênticos, quando ocorrem em países incluídos no seu espaço político-ideológico. Só para dar dois exemplos extraídos da América Latina, a Colômbia e a Guatemala vivem há meses situações de profunda tensão social, com manifestações reprimidas violentamente pelas autoridades, tendo causado dezenas de mortos - e o que se vê nas cadeias internacionais de televisão ou lê na grande imprensa ocidental? Nada.

Por outro lado, a associação entre a profunda crise económico-social vivida em Cuba com o regime político do país é pura ideologia. Os malabarismos retóricos que alguns fazem para negar a importância do bloqueio (agravado por Trump e mantido por Biden) para a referida crise são, para ser gentil, ridículos. Embora não seja o único, o bloqueio continua a ser o principal fator da crise económico-social cubana.

Não há, diga-se, nenhuma relação unívoca entre autoritarismo e desempenho económico. O país que mais tem crescido economicamente nas últimas décadas - a China - não é um país nem política nem economicamente liberal (é um capitalismo de Estado assente num regime de partido único). Lamento informar que capitalismo não é sinónimo de liberalismo, como, aliás, o fascismo e as suas manifestações atuais o demonstram.

Por conseguinte, o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano tem razão: "O que os incomoda em relação a Cuba não são os erros da Revolução, que houve e há. O que realmente não podem suportar é que um país pequeno e pobre não se dobre diante do Império."

Aqui chegado, tenho de dizer: é urgente uma análise e uma crítica de esquerda - e moderna - à situação em Cuba. O regime de partido único, sem liberdades políticas, é indefensável e insustentável a longo prazo. O socialismo do século XXI tem de ser liberal do ponto de vista político e dos costumes, classista no plano económico e social (priorizando as classes populares e os interesses dos grupos mais desfavorecidos e discriminados) e ecologista em termos de desenvolvimento. Será que a liderança cubana estará pronta a reinventar-se? Se não o estiver, temo que, mais tarde ou mais cedo, o bebé seja jogado fora com a água do banho.

O exemplo de Cuba, por todo o seu simbolismo histórico, continua a ser necessário, a começar pela América Latina. Os líderes populares da região deveriam apoiar o país de Fidel a fazer as mudanças que se impõem, deixando de se manter entrincheirado numa posição meramente defensiva.

Jornalista e escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho

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