Cronómetros em riste

Com três anos e quatro meses até ao fim da sua presidência, o legado de Marcelo Rebelo de Sousa não será simples de descortinar quando chegarmos finalmente a 2026, o ano para que todos precocemente olham: do almirante a Santos Silva, de Montenegro a Moedas, de Ventura a Pedro Nuno, todos de cronómetro avidamente atento. Quando se colocar a década de Marcelo em perspetiva, a ascensão de novos populismos, a tragédia dos incêndios, o trauma da pandemia, a debilidade do Serviço Nacional de Saúde e a fragilidade das nossas instituições serão inseparáveis da era que, com António Costa, encabeçou. Por inevitabilidade das circunstâncias a que presidiu e dos governos com que conviveu, a frase que talvez o melhor resumirá é a que ele próprio proferiu na madrugada de Pedrógão Grande: "Fez-se o que se podia."

Esta semana, com as audições de Augusto Santos e Silva e André Ventura em Belém, a mesma sentença serviria. O Presidente fez o que pôde. Perante o Chega, a primeira bancada nacionalista em 48 anos de democracia e ameaças de tornarem a Assembleia num ringue de boxe ("batatada") caso não se pronuncie sobre a censura de Santos Silva, o Presidente permaneceu impassível. Nada disse. Os "assuntos internos" da Assembleia não contam com a sua opinião, mesmo com prenúncios de violência em plenário no ar e que seja ele o guardião do funcionamento institucional do regime.

Perante o presidente da Assembleia, recebido dois dias antes, Marcelo também não soltou um murmúrio. Apesar de Santos Silva negar debates ao Chega não se negando a debater com ele, pedir pareceres sobre projetos do Chega antes de estes darem sequer entrada e antagonizar, qual tribuno, o grupo parlamentar de Ventura, o Presidente manteve-se mudo sobre o extravasar de competências do ex-ministro. O verdadeiramente interessante na reação de Marcelo ao duelo Augusto vs. André é não se ter distanciado de nenhum deles. O líder do Chega veio a público desafiar o Presidente da República a desmenti-lo, afirmando ter percecionado proximidade de Marcelo à sua posição sobre os excessos de Santos Silva, e o facto é que o Presidente não o veio desmentir.

Preso entre um populista que concorreu ao seu lugar e a uma segunda figura do Estado que deseja ser primeira, Marcelo faz o que pode: nada.

O que não significa que seja indiferente a um presidente do Parlamento que usa a função para pré-campanha e a ameaça populista como trampolim.

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Não será com certeza fácil na política ser futuro antes de o futuro chegar. Pedro Nuno Santos e Carlos Moedas, entrelaçados por essa sina e respetivas ambições, sentirão essa dificuldade até ao tão aguardado ano de 2026. O ministro das Infraestruturas, assim que viu António Costa novamente fora de fronteiras, não resistiu à fome de liderança que o caracteriza e atirou-se prontamente a Luís Montenegro. Montenegro, ciente das ânsias do ministro e da memória ainda viva do turbilhão que causou, descartou-o enquanto interlocutor. Horas depois, com idêntico voluntarismo, Moedas deu uma entrevista profícua em elogios a Pedro Nuno (à política "para as pessoas" e que "quer responder a problemas") quando a estratégia do líder do seu partido, o PSD, é responsabilizar o governo por ter maioria absoluta e não responder aos problemas das pessoas.

Pedro, a que as tais pessoas reconhecem crenças mas não confiabilidade, e Carlos, em quem as mesmas pessoas acreditam mas de quem começam a desconfiar, sofrem ambos por se considerarem melhores do que quem manda, tendo muito que aguardar até mandarem por eles. O primeiro, até agora, entregou 2% das casas para habitação social que anunciou. O segundo, em menos tempo, abdicou das promessas que encheram os seus cartazes.

Na espera, o mais difícil é não cometer erros.

Para eles, que são futuro, é demasiado cedo para cometerem tantos.

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